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Caro Tozé Brito (claro que mete a #pl118)

por jonasnuts, em 10.01.12

É com muito gosto, e penalizando-me pela demora, que retomo a nossa correspondência. (Ver 1ª carta, ver 2ª carta).

 

Gostei muito da entrevista que deste ao Jornal i, e gostei, sobretudo, porque significa que te encontras bem de saúde. Quanto ao resto, como já sabes, estamos em lados opostos da barricada.

 

Gostaria de te felicitar, também, pelo oportuno e espectacular sentido de oportunidade, uma sorte, um acaso, que o Jornal i tenha decidido, de repente, entrevistar-te, bem como a outros tubarões (e o termo é carinhoso, evidentemente) da indústria fonográfica. Ser media bitch não é para todos.

 

A entrevista que deste, carece de muitas coisas, nomeadamente de factos reais, completos, verdadeiros e honestos. Por exemplo, a quebra de 38% nas vendas de CDs, vinis e DVDs musicais não teve qualquer impacto na venda das músicas. Não sei se sabes, mas há uma coisa chamada iTunes (para dar apenas um exemplo), que vende música, sem que seja necessário um suporte físico. Há também serviços como o do Spotify (para dar apenas um exemplo), em que tu pagas para ter o direito a ouvir música, sem que tenhas de ter qualquer suporte físico, e há, ainda, a Amazon (para dar apenas um exemplo), onde muitos portugueses (yours truly, por exemplo) compra os poucos CDs que lhe apetece comprar. Há anos que não compro CDs. E DVDs, musicais ou dos outros, vêm de fora. Mais variedade, mais qualidade, sobretudo, menos DRM. Nunca deixei de comprar música. Confundir-me com pirata, ou querer fazer-me passar por criminosa é coisa que me irrita. Solenemente.

 

Também não concordo contigo, quando dizes que daqui a 10 ou 15 anos não haverá pessoas a viver da música. Eu reescreveria a tua frase, dizendo que, espero ardentemente que, daqui a 10 ou 15 anos, as únicas pessoas a viver da música sejam aqueles que de facto estão envolvidos na criação e interpretação da música, dispensando as indústrias parasitas que a evolução do tempo, da tecnologia e das mentalidades se encarregará de expulsar de um processo com o qual já nada têm a ver, e onde estão apenas para tentar preservar, à força da legislação, um modelo de negócio que já não faz sentido.

 

Até há uns anos, os autores, criadores, artistas, sabes, aqueles que de facto produzem aquilo que as pessoas querem consumir, dependiam das grandes empresas. E dependiam de várias formas. O equipamento profissional para gravação das músicas estava nessas grandes empresas, a distribuição passava por essas grandes empresas, e a promoção, a mesma coisa.

 

Mas, a evolução tecnológica, mudou radicalmente o panorama que em cima te descrevi (e que tu tão bem conheces), hoje, qualquer pessoa pode ter em casa um estúdio onde produz e grava com muita qualidade. Com a Internet, pode fazer o seu site, promovendo o seu trabalho. Pode pegar no mail, e mandar samples das suas músicas para as rádios. E pode criar a sua legião de fãs (umas maiores, outras mais pequenas), à medida que o seu trabalho vai sendo conhecido e divulgado, pelas redes sociais, a famosa web 2.0 é uma importante ferramenta de comunicação, e vocês, não a dominam. Um autor, pode fazer tudo isto, sem que haja um CD envolvido, sem que vocês sejam necessários, transformaram-se num peso morto.

 

O vosso modelo de negócio, tornou-se obsoleto; o da exploração de conteúdos alheios, e em vez de evoluirem, vocês optaram por estagnar, cobrir a cabeça com os cobertores, e usar lobbies para que a legislação proteja o vosso negócio (e estilo de vida, convenhamos), já completamente ultrapassado.

 

 

Por último, um desabafo. Que merda de jornalista te tocou na rifa. Sem fazer quaisquer perguntas de jeito, oportunas, aquilo que qualquer pessoa com dois dedos de testa teria perguntado, nesta altura do campeonato, com a PL118 em cima da mesa e nas bocas do mundo, enfim, tu deves ter gostado, foi fácil, lá está, foi meter a K7 e dizer aquilo que já dizes há uns anos, mas a verdade é que trabalho jornalístico, ali, não há. Bem sei que não tens culpa, que uma pessoa não escolhe nem encomenda as perguntas que lhe fazem.

 

Ou será que escolhe?

 

Um abraço, e um dia destes tomamos um café.

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16 comentários

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De Jose Gaspar a 10.01.2012 às 16:49

IMPECÁVEL!!
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De Rui Cruz a 10.01.2012 às 17:04

Epah, fiquei fã
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De Ana Ferreira a 10.01.2012 às 17:45

Adorei. Muito bem.
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De Bruno a 10.01.2012 às 18:07

Para entender o estado da música em Portugal, basta olhar para o mediocre site da SPA. Que autêntica javardice.

Quanto ganha o Tozé Brito de ordenado na SPA? Isso é que era bom de se saber. Se tiver coragem, revele.
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De margarete a 10.01.2012 às 21:55

agora só falta que as pessoas comprem, de facto, os produtos aos artistas
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De jonasnuts a 10.01.2012 às 21:57

Nunca deixei de o fazer :)
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De margarete a 10.01.2012 às 22:01

percebi que sim
e não vou dizer que não tenha "backups" recebidos
mas compro (cd's/dvd's e em digital)
mas parece-me que somos uma minoria, é muito dificil abrir mão da cultura ao alcance dum click e muito fácil esquecer que os artistas também têm de comer, mesmo após o declino dos maus dos donos das editoras
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De jonasnuts a 10.01.2012 às 22:04

O que significa que quem vive deste negócio, tem de actualizar os meios de distribuição e modernizar-se.

Não me parece que isso esteja a ser feito, porque não é com aqueles spots idiotas, que OBRIGAM as pessoas a ver no início dos DVDs COMPRADOS que se faz boa pedagogia :)
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De margarete a 10.01.2012 às 22:08

concordo, mas tb não tenho muita fé nos consumidores
my bad
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De jonasnuts a 10.01.2012 às 22:09

Eu também não, mas não faz parte da minha personalidade, comer e calar :)

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De margarete a 10.01.2012 às 22:12

"like" :)
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De João a 10.01.2012 às 23:06

Em cheio!
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De a 11.01.2012 às 10:01

Pode ser que seja só eu, mas há aqui um aspecto no qual nunca ninguém da SPA ou editoras multinacionais parece querer tocar: a mensagem que passam é a de que se implícitamente se chora pelos artistas *portugueses*.

A minha pergunta é: qual á a percentagem do volume de negócios dessas editoras que resulta desses artistas *portugueses*? Como músico e até já tendo desenvolvido sites para uma ou outra, a minha impressão é de que essa percentagem é mínima e que a atenção dada aos artistas *portugueses*, na maior parte dos casos, se aproxima do zero. São normalmente uma nota de rodapé, salvo os dois ou três dinossauros da praxe.

Veja-se a resposta da CleanFeed no "artigo" do I. Já agora era também curioso saber a opinião das outras editoras mais pequenas (Chifre e afins).
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De Pedro Ferreira a 11.01.2012 às 11:09

Acabei de gastar cerca de 50€ em música que adquiri na net. 30€ doados directamente ao autor, que disponibilizou as músicas no youtube gratuitamente e 20€ via iTunes que, salvo erro, cobra 30% pela distribuição. Isto é, dos 50€ que gastei, cerca de 44€ foram directamente para os bolsos dos autores e 6€ para a distribuição...

Se por acaso estes tipos tivessem usado uma distribuidora convencional, NUNCA na vida receberiam 1 cêntimo meu... NUNCA. Não porque não merecessem mas simplesmente porque não iria ouvir falar sobre eles e como tal nunca compraria um CD sem saber no que me estava a meter. E o dinheiro que viessem a receber (de outros) seria certamente apenas uma pequena parte do que os ouvintes pagariam.

Isto é apenas um exemplo e não se pode extrapolar para o todo, eu sei... Mas representa bem o quão obsoleto está a distribuição convencional (ou melhor, arcaica) e justifica bem o porquê de Tó Zé Britos e afins estarem a espernear para manter um monopólio estúpido e que bloqueia a criatividade.

Ah, já agora... O grupo que estou a falar é "Walk off the earth". Basta procurar no google, youtube, facebook, twitter, etc e começar a ouvir gratuitamente... E se acharem (como eu achei) que a sua criatividade merece ser premiada que ofaçam depois...
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De Me a 11.01.2012 às 18:00

Tomara todos nós termos um décimo da tua "vontade" para ler com olhos de ler e depois criticar (ou emitir qualquer opinião) de forma sustentada.

Bravo!
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De Mário Moreira a 11.01.2012 às 21:44

Muito bom. Sou oficialmente tou fã :)

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