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Community manager

por jonasnuts, em 30.03.16

Há quase 20 anos que tenho imensa dificuldade em responder, nos formulários que me caem no colo, à questão "profissão?".

 

Antes era mais fácil; "publicitária" ou "produtora de publicidade", que era esquisito, mas mesmo assim, era minimamente conhecido e modernaço.

 

Quando mandei a publicidade às favas e passei a fazer profissionalmente algo ainda mais esquisito, a dificuldade agravou-se. Ao princípio escrevia "Internet", porque era suficientemente vago e ninguém sabia bem o que era, só sabiam que era moderno. Depois passei a escrever "gestora de serviços de comunidade", que era mais exacto, mas que literalmente ninguém sabia o que era. Foram muitas as vezes em que, à minha frente, era riscada a parte dos "serviços de comunidade" para ficar apenas o "gestora". 

 

"Gestora" eles percebiam bem o que era, embora, na minha perspectiva, "gestora" seja quase tão abrangente como "Internet". Mas era um abrangente mais conhecido e, sobretudo, na perspectiva "deles" tinha mais élan.

 

Mas, na realidade, o que eu faço há quase 20 anos, entre muitas outras coisas, é mesmo isso; gestora de comunidades online. Devo ser a pessoa que, em Portugal, o faz há mais tempo.

 

Tive a enorme vantagem de poder aprender com as mãos na massa, e tive a sorte de, quando comecei, não existirem redes sociais, pelo que os erros que naturalmente cometi enquanto aprendia a coisa, não tomaram nunca proporções bíblicas. Fui uma privilegiada, na medida em que pude aprender à minha custa e à custa das comunidades que geri, e que me ajudaram, a perceber os "dos and don'ts" duma actividade acerca da qual havia muito pouco know how e o que havia era estrangeiro, que não é facilmente transponível para as idiossincrasias portuguesas. 

 

Foi por isso com muita satisfação que, de há uns meses para cá, vi começarem a aparecer anúncios de emprego para "Community Managers". Olá, pensei, as coisas começam a animar.

 

Vi muitos desses anúncios.

 

A grande maioria deles pede pessoas recém-licenciadas, com frequência, o que oferecem é um estágio (normalmente não remunerado). Pedem pessoas que saibam de SEO e SEM, e de Google Analytics, e de Facebook Ads, e de html e css, e de criação e gestão de conteúdos, e competências de design são factor preferencial. Estou a excluir os pedidos mais idiotas, como php, python, javascript e outros que tais, que se vê mesmo que não sabem muito bem de que é que estão à procura.

 

Em NENHUM anúncio eu vi pedidas as características que são mais importantes num community manager: disponibilidade e bom senso.

 

Disponibilidade, porque se é online, a coisa tem de funcionar 24/7. Bom senso porque é uma característica muito subvalorizada e é a que impede de fazer disparates, num mundo em que é preciso ser-se rápido no gatilho. Comunicação (quase) em tempo real exige MUITO bom senso. 

 

 

Foram raros os anúncios em que foram pedidas as segundas características mais importantes num community manager; a utilização irrepreensível da língua portuguesa e a cultura, quer geral quer específica do meio.

 

Um recém licenciado não sabe escrever. E não me refiro aos recém-licenciados das engenharias. Refiro-me a todos os recém-licenciados, e passaram-me muitos pelas mãos. Mas, pelos vistos, isso não interessa para nada, porque a utilização irrepreensível da língua portuguesa não é fundamental para quem anda à procura dos novos community managers, pelo menos a julgar pelos anúncios que vi.

 

Para mim, sempre foi fundamental, para qualquer posição, mas especialmente para aquelas que contactam directamente com os clientes/utilizadores, customer care incluído.

 

Cultura geral e cultura específica do meio, porque quem gere uma comunidade comunica com muitas pessoas diferentes e quanto mais o seu discurso estiver adaptado a cada interlocutor, mais eficaz será. Cultura geral impede argoladas básicas, cultura específica do meio permite uma resposta no mesmo tom, e deixa antever modernidade e actualidade que são muitas vezes (mas não sempre) factores decisivos. 

 

LuisB.jpg

 

Outra ausência gritante dos anúncios é a valorização da presença online dos candidatos. Em nenhum anúncio vi serem pedidos o endereço do Blog, do Facebook, do Twitter, do Instagram, etc....

Peço sempre isto, nos anúncios que coloco. Permite-me ter uma ideia acerca da personalidade da pessoa, da forma como escreve, há quanto tempo usa determinadas ferramentas, com que frequência, etc..

Tudo dados fundamentais para se desempenhar uma função de gestão de comunidades.

Já me aconteceu, no passado, ter de encontrar alguém que tivesse, também, competências (ou potencial) de community manager (enfim, de acordo com a minha definição da coisa). Não me enganei.

 

E, por último, os salários. À partida, um estagiário, não ganha grande coisa. Se não ganha grande coisa e é estagiário, é sinal de que está a aprender (o que contradiz o pedido frequente para estagiários, com experiência), ora, eu não quereria entregar a comunicação da minha marca ou do meu serviço a alguém que está a aprender porque, lá está, se está a aprender, que não seja às custas da minha marca e do meu serviço. Para community manager, nunca quereria ninguém com menos de 5 anos de experiência específica nesta área, mas essa não parece ser uma preocupação de quem recruta. Confirma-se assim o "If you pay peanuts, you get monkeys".

 

Vai na volta e a definição corrente de community manager é muito diferente da minha. Um community manager, na versão actual, é um gestor de redes sociais. Portanto, algo muito mais simples do que criar e gerir uma comunidade usando, entre outras ferramentas, as redes sociais. 

 

Para mim, community manager é a pessoa que cria e mantém uma comunidade. Por comunidade entende-se um grupo de pessoas que, por usarem o mesmo serviço ou o mesmo produto ou frequentarem o mesmo sítio se sentem incluídas e como pertencentes a algo que as diferencia de quem não tem essa presença ou utilização. E criar essa noção e esse sentimento de pertença num grupo (desejavelmente cada vez maior) de pessoas, não é tarefa fácil.

 

Criar e gerir uma comunidade não é um sprint (como muitos parecem achar), é uma maratona. É um trabalho que exige paciência, tempo, entrega, pertença à comunidade que se quer gerir e, muito importante, ouvir. Uma comunidade que não participa no processo de decisão, ou que não é ouvida nesse processo, não é uma comunidade.

 

Fazer like na página duma marca, no Facebook, não faz de mim membro de nenhuma comunidade. Seguir uma marca no Twitter ou no Instagram não faz de mim parte duma comunidade. 

 

E é assim que chego à conclusão de que hoje, tal como há 20 anos, a profissão de community manager é uma raridade. O resto da malta é gestor de redes sociais e, para mim, isso é muito diferente (faz parte, mas está longe de ser a única competência). 

Acho que vou regressar ao "Internet", nos formulários, para não correr o risco de acharem que sou só gestora de redes sociais.

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14 comentários

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De ana a 30.03.2016 às 18:37

É engraçado — também me mudei há uns anos de publicidade (lembraste da Lelo?) para community manager a tempo inteiro. E de tanto ter de explicar o que fazia, também escrevi um post sobre isso: http://meiadeleite.com/2012/08/12/what-exactly-does-a-community-manager-do

Acho que concordamos na nossa visão da coisa! :)
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De ana a 30.03.2016 às 18:38

*lembras-te, bolas :)
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De jonasnuts a 30.03.2016 às 18:45

Eu fiz produção (gráfica e audiovisual) durante uns anos valentes. Mas andei na publicidade desde que nasci (por via da minha mãe), e não me enchia as medidas, pelo menos a partir de determinada altura.

Quando acordei para a Internet, ainda tentei que a agência onde eu estava se especializasse nesta área, mas o director-geral daquilo chamou-me maluca, e que a Internet era apenas uma moda.

Pouco tempo depois larguei tudo (quadro, cargo de direcção, carro e demais benesses associadas ao cargo de Directora de Produção") e fui trabalhar a recibos verdes para o Terràvista.

Voltava a fazer o mesmo, hoje.
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De Nuno Cardoso a 30.03.2016 às 18:44

Depois de ler este texto sinto que não estou sozinho no mundo!

Nunca fui publicitário nem gestor, mas passei por «consultor de marketing» e «consultor de comunicação». E não o faço há 20 anos, mas julgo ter sido dos primeiros nesta mais recente vaga de criação de empregos na área digital.

Tive a sorte de começar numa empresa que me permitiu fazer a gestão de dezenas de contas, de diferentes naturezas e com os mais variados públicos, tanto no seu perfil como dimensão.

Quando comecei a estar atento a outras oportunidades de emprego, com o intuito de evoluir na carreira, demorei a encontrar algo que se adequasse ao que fazemos. Ainda assim, lá iam aparecendo algumas ofertas para «produção de conteúdos».

Entretanto, comecei a ir a algumas entrevistas e acho que nunca fui selecionado por não ter aquele perfil «geek» de técnico de SEO, SEM, Analytics, HTML, CSS, etc.!

Nunca, mas nunca, ninguém me perguntou se sabia escrever (apesar das minhas tentativas para introduzir o assunto!). Nunca, mas nunca, ninguém me perguntou se utilizava o telemóvel para estar disponível 24/7 nem que aplicações utilizava para o fazer.

Parabéns pelo texto e, acima de tudo, obrigado!

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De jonasnuts a 30.03.2016 às 18:51

Bom, aparentemente, somos poucos, mas bons :)
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De Pantapuff a 30.03.2016 às 18:58

Grande "resumo" da saga que é a vida "da malta". Tu resumes internet eu resumo "facebook". Desisto. No dentista perguntaram-me qual a profissão e eu respondi "gestora de redes sociais" e eles espetaram lá "gestora comercial" e ainda perguntaram se era a mesma coisa... lá disse que sim. Até os meus pais dizem "ah ela trabalha no facebook" sim porque isto de explicar porque é que passo o tempo no facebook ou o telemóvel está constantemente a apitar e há urgências a qualquer hora... acho que o ideal seria "bombeira do online" :p
Conheço gente que trabalha online das 9h às 18h e supostamente são social media managers e eu questiono-me como é que tal é possível... depois vejo que afinal trabalham em empresas de publicidade e gerem campanhas... e por vezes demoram umas quantas horas a responder.

Sou mais pequenina que tu mas também aprendi a dar cabeçadas aí nas plataformas e nas comunidades e continuo a achar que é a melhor forma de se aprender. Não há um curso que forme as pessoas para o online e os cursos de comunicação estão ainda muito focados nas bases de sociologia e nos media tradicionais.
Na minha grande inocência, enquanto tirava gestão cultural decidi escolher cadeiras de comunicação vocacionadas para redes sociais e quando saí de lá tinha aprendido tanto mas tanto... que quando me aparece alguém à frente que diz que vem daquele curso deito as mãos à cabeça, conto até 3 e depois preparo-me para dar explicações de coisas básicas e que aprendi com aquela primeira vaga de malta que foi para o facebook porque o twitter estava sempre com baleias a flutuar... Bons profs e boas discussões tive eu aí nessa altura. (pausa para pensar com saudades do mIRC :p)
Gerir uma rede ou uma comunidade obriga a uma constante necessidade de absorver informação. Ora leio sobre vinhos, ora sobre tratamentos com areias que fazem milagres. Convém ter paciência... muita paciência para não ver algumas desgraças como às vezes é comum. A vantagem de não estar "ao telefone" é poder respirar fundo antes de escrever a resposta.

Dizes bem que gerir uma comunidade é muito diferente de gerir uma rede, até porque a forma de comunicação e interacção é diferente.
Olha lá e quando é que vamos beber um café? xD
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De jonasnuts a 31.03.2016 às 09:21

Cafezinho, quando quiseres :)
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De Tatiana Albino a 30.03.2016 às 23:45

Tal e qual! E as diferenças de nomes no CV? Social Media Manager, Community Manager, etc. Mas para mim o mais natural sempre foi Community Manager.

E concordo muito com a importância dos candidatos terem, eles próprio, brio nas suas presenças online.
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De Carlos Francisco Leitão a 31.03.2016 às 16:06

Boa tarde,li o seu texto hoje e gostaria se possível falar consigo no intuito de perceber, que tipo de ofertas de trabalho é que existem e quais as principais empresas a recrutar nesta area .

Sou licenciado em Marketing e Publicidade e estou a frequentar neste momento uma pós graduação em Marketing Digital. Caso seja possível gostaria que me contactasse para o seguinte email: Francisco.Leitao2013@gmail.com.
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De jonasnuts a 31.03.2016 às 16:31

Olá Francisco. Dá-me ideia que não leu o meu post lá muito bem, ou então pretendeu validá-lo, na parte em que me refiro aos recém-licenciados :)

Obrigada por isso.

De qualquer forma, podemos falar por aqui, que é para isso que servem as áreas de comentários dos posts.

No que eu puder ajudar........ estou disponível.
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De Francisco Leitão a 31.03.2016 às 17:04

Tenho reservas por onde começar, mas queria uma perspectiva de empresas que seriam a partida, boas para iniciar uma aprendizagem on the job.. se eu não tenho experiência tenho de a ir buscar a algum lado. E eu acho que é fácil falar em relação a alguém que quando iniciou o seu processo de aprendizagem, não havia se quer a noção daquilo que se exigia a um funcionário nesta profissão. Por essa razão ser pioneiro é isso mesmo, é definir as regras de qualquer coisa que no futuro sabemos que vai ter tendência a mudar em função do tempo,mas alguém vai ter de dar o primeiro passo. Acho muito bem que uma pessoa tenha de ter essa noção de cultura porque só assim percebe para que tipo de pessoas está a comunicar, e até correr o risco de as mesmas pessoas ao longo do tempo mudarem também.

Isto tudo para perguntar simplesmente, num mundo em que é cada vez mais difícil ser diferente, onde é que eu posso começar a mostrar as vantagem disso mesmo numa fase inicial da minha carreira. Provavelmente vou ter de engolir alguns sapos, mas quem não os engoliu ?

Obrigado.
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De jonasnuts a 31.03.2016 às 17:15

Bom, engolir sapos faz parte da job description, mas, a melhor forma de começares, na minha opinião, é pela marca que melhor conheces; a tua. Tu és uma marca. Começa por trabalhar essa marca, online. Chama-se a isto criar a tua reputação.

Cria um blog, de preferência (mas não é obrigatório) com domínio próprio, e começa a investir nessa marca, começa a criar-lhe os contornos e a definir-lhe as prioridades e a estratégia para atingires os teus objectivos. Escreve sobre aquilo de que gostas.

Aquilo que refiro no post, sobre a utilização da língua, também se treina, e a escrita é parte fundamental de quem comunica, online (e não só, mas agora é nessa perspectiva que falo). A tua escrita melhora com o tempo. Descobres o teu estilo, apuras esse estilo.

Se fores ler os primeiros posts deste blog, verás que são miseráveis. Com o tempo, foram melhorando. Não foi difícil, havia muito por onde melhorar :)

Usa um corrector ortográfico. Sempre. E relê sempre, antes de publicar.

Antes de quereres ser diferente, tens de ser bom. Depois de seres bom, podes pensar em ser diferente :)

A língua (não é essa, é a outra) é a tua ferramenta, estima-a.

É assim que ganhas experiência.

Lê, muito, blogs, livros, artigos, jornais, revistas, mas o que leres, filtra, com parcimónia, e aplica-lhe sentido crítico. Não emprenhes auricularmente com facilidade.

E, não sei onde fizeste o curso e/ou o mestrado, mas arrisco-me a sugerir-te que podes esquecer 90% do que tiveste que empinar, nestes últimos anos de estudo.

Sorry :)

Mais dúvidas e perguntas...... não hesites (tratemo-nos por tu, que eu não gosto do você).
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De Francisco Leitão a 02.04.2016 às 11:11

Assim vai ser ;), vou fazer perguntas de tempos a tempos.

e desde ja obrigado :D.
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De urreivainu a 31.03.2016 às 17:39

Não sou da área, mas já pensei em fazer alguma formação... Concordo muito com o que li. Aplica-se até em noutras profissões. É sempre bom saber que há mais quem partilhe uma opinião por muito contra a corrente que esta seja...

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