Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]






Arquivo



Médicos

por jonasnuts, em 14.11.11

Os médicos são pessoas, como as outras. Como em todas as profissões, haverá bons e maus profissionais, pelo que este meu post não deverá ser entendido como uma generalização.

 

Conheço bons médicos (com quem tenho uma relação médico/paciente), tenho amigos médicos, mas quero falar aqui da minha experiência, por estes dias, com os médicos que têm acompanhado a minha avó no Hospital Garcia de Orta.

 

A minha avó, de 95 anos, está internada desde o dia 4, com um pulmão colapsado e com um diagnóstico de pneumonia atípica (porque não apresenta um quadro infeccioso, nem febre tem) e um prognóstico muito reservado, e tem sido um pesadelo. Pesadelo, vê-la a sofrer, e a respirar como se fosse um peixe fora de água.

 

A equipa de enfermeiros e auxiliares tem sido verdadeiramente extraordinária. A sério. Impressionante o equilíbrio que aquela equipa consegue entre a informação clínica explicada a leigos (que é o que eu sou) e a compaixão para quem está, naturalmente, mais fragilizada pelas circunstâncias.

 

Já a minha experiência com os médicos do mesmo serviço, não tem sido positiva, em primeiro lugar porque raramente os vejo.

 

A primeira vez que falei com uma médica, foi quando uma assistente me veio informar, sorridente, que iam picar a minha avó (sic). Perguntei de que exame se tratava, e explicou-me que seria uma espécie de biopsia, para se descobrir o que tinha ela no pulmão colapsado. Perguntei-lhe se era um exame invasivo. Respondeu-me que era muito invasivo. Perguntei se não havia alternativas, e ela foi buscar a médica a sério. Falei com esta médica, perguntei-lhe se havia real necessidade de se fazer um exame tão invasivo, a uma mulher de 95 anos, e a médica disse que ainda estavam a avaliar essa necessidade, mas que se a família não recomendava exames invasivos, ela teria isso em conta, quando tomasse a decisão. Não era simpática, mas era profissional, e explicou-me tudo bem explicado, e ouviu-me. Foi clara na resposta, a decisão é minha porque eu é que sou médica, mas anotei a sua recomendação. Nada a dizer, é assim que eu acho que deve ser.

 

A outra vez que falei a sério com uma médica, foi depois da minha avó ter tido um edema pulmonar agudo (basicamente estava à rasca, e eu a ver que ela se ia apagar), e me chega a senhora da assistência social (ou lá o que é), a querer falar da alta e das condições que seria preciso reunir, para que ela fosse para casa. Expliquei à assistente social que não pretendia antecipar cenários hipotéticos, que estariam, na minha opinião, longe de se concretizarem.

 

Saiu. Foi buscar a médica.

 

A médica trata-me como se eu fosse atrasada mental. "A sua avó está muito melhor, está a responder bem à medicação, e vai ter alta amanhã". Ora, eu sou leiga, mas isso não significa que eu seja burra. Eu acho que a minha avó está substancialmente pior do que estava quando deu entrada na urgência. Ou me explicam por A mais B porque é que acham que ela está melhor, ou eu não percebo. Se eu não percebo, terei mais dificuldades em colaborar e contribuir para o objectivo pretendido, a alta.

 

A médica foi extraordinariamente arrogante, falou vagamente em complicações cardíacas (primeira vez que ouvi falar nisto), e disse que não ia continuar a discussão, e que precisavam da cama, e que eu tinha mais era que fazer o que ela dizia, senão era pior.

 

Ainda tentei aprofundar a ameaça (eu respondo mal a ameaças, sabem?), mas a doutora virou costas e deu de frosques. Eu não estava alterada, eu não estava irritada, eu não estava nervosa ou a falar alto. Eu queria apenas perceber, porque é que a minha avó parecia tão pior, e lhe queriam dar alta.

 

Depois da conversa com a médica, a assistente social voltou à carga, "vamos lá então falar sobre a alta". Coitadinha. Expliquei-lhe que eu reagia mal a ameaças e que continuava a recusar-me a falar de um cenário que não me tinham convencido de que era o melhor para a minha avó.

 

Quatro dias mais tarde, 2 edemas pulmonares agudos depois, a minha avó continua internada. Cada vez mais aflita. E eu com ela.

 

Eu já percebi. A minha avó vai morrer brevemente, e aquele já não é o sítio onde ela deve estar. Deve estar em casa, que é onde se deve morrer.

 

Só quero que os médicos me digam isso, e não me tratem como ovelha dum rebanho de que são eles os pastores.

 

Eu percebo que estejam habituados a funcionar assim. Em Portugal fazem-se poucas perguntas aos médicos. E alguns médicos não estão habituados a terem de explicar as coisas às pessoas. Foi sempre assim que funcionaram. Dão ordens, e as pessoas obedecem, porque confiam, e porque, aos senhores doutores, não se fazem perguntas, porque se eles mandam, eles é que sabem.

 

Eu não sou assim, normalmente. E certamente não sou assim, quando a minha avó está a morrer, ali ao lado.

Autoria e outros dados (tags, etc)



39 comentários

Sem imagem de perfil

De LuisF a 14.11.2011 às 21:01

Tocante... Também passei por uma "cena" assim... Tudo igual: argumento, cenário e atores... Um dia seremos protagoistas...
Imagem de perfil

De aespumadosdias a 14.11.2011 às 21:08

São uns insensíveis. Uma pessoa que tens excelentes novas no secundário pode não dar 1 bom médico. Que a tua avó fique melhor.
Imagem de perfil

De jonasnuts a 14.11.2011 às 21:19

Obrigada. Mas, sendo realista, o único caminho da minha avó é a morte. Que venha sem sofrimento, é a única coisa que peço neste momento.
Sem imagem de perfil

De netalvesj a 14.11.2011 às 22:18

O meu avo, com 95, tb passou por algo do género, e admito que o que mais nos preocupou foi mesmo o sofrimento....
Força...
Imagem de perfil

De jonasnuts a 14.11.2011 às 22:19

Obrigada :)
Imagem de perfil

De Jorge Soares a 14.11.2011 às 21:20

Infelizmente uma grande parte da classe médica sofre de um mal para o que parece não há cura possível, a arrogância em ultimo grau, depois há uns que ainda conseguem acumular com uma enorme prepotência... infelizmente não há muita gente como tu que questione e não aceite meias palavras... mas deveria haver.

Triste, muito triste, o pior é que como alguém já disse, é algo do que infelizmente ninguém consegue fugir.

Jorge Soares
Imagem de perfil

De jonasnuts a 14.11.2011 às 21:25

Confesso que não afino bem por essa bitola, e, de há uns anos para cá, noto alguma diferença, para melhor. Infelizmente tenho lidado com alguns médicos nos últimos tempos, e o saldo tem sido francamente positivo.

No Garcia de Orta tenho tido azar, é um facto, mas, por exemplo, o chefe de serviço da urgência quando a minha avó deu entrada (foi preciso falar com o chefe de serviço para perguntar o que é que se fazia com aquele quadro clínico), chegou rapidamente, esclareceu as minhas dúvidas, foi simpático e realista (disse-me o mantra destes dias - um dia de cada vez).

Tenho pena de não o ter apanhado mais vezes.

Mas acho que tem sido só isso, uma questão de azar.
Sem imagem de perfil

De Ana Gonçalves a 15.11.2011 às 00:13

Lamento, Jonas. Já passei por isso, também com a minha avó, só que em Santa Maria. Vários internamentos, ao longo de 5 anos, com 1 doença crónica. Sinceramente, o pior do internamento era a completa falta de apoio: se a família lá não estivesse o maior tempo possível , ela ficava abandonada por horas na cama ou no cadeirão. Quando precisava de alguém, eu percorria aqueles corredores vezes sem conta sem encontrar nenhum enfermeiro/auxiliar. Acabei por usar o material que encontrava (e depois tinham a lata de me dizer que não era com aquilo que se usava... mas eu já nem lhes ligava). Os médicos só os vi no ultimo internamento. Por acaso, comigo foi ao contrário, nós é que perguntávamos da alta e eles não respondiam, tentando dizer, sem o dizer, que não haveria alta, que ela nunca regressaria a casa... Mas tem esperança, porque às vezes eles surpreendem-nos. Eu achei que ela morria no meu 2º ano de universidade, e ela viveu para me escrever a fita. Força.
Imagem de perfil

De jonasnuts a 15.11.2011 às 00:23

Não sinto essa falta de apoio, ali no Garcia de Orta. Enfermeiros e auxiliares, sempre por ali, sempre disponíveis, a saberem o que comeu, o que não comeu, se descansou, se esteve agitada, e têm sido os enfermeiros a dar-me as informações de que disponho.

A minha avó já me surpreendeu muitas vezes (ainda no início deste ano fracturou o clo do fémur, e foi uma odisseia, precisamente no Garcia de Orta), mas a verdade é que a inha esperança, neste momento, resume-se a que a coisa se dê rapidamente e sem sofrimento.

Está há mais de 1 semana a oxigénio (com doses aumentadas de tempos a tempos), vários edemas pulmonares agudos, picos de tensão, lúcida, muito lúcida, desconfortável, aflita com falta de ar, barulhos no peito se ouvem a uma distância considerável......está a sofrer, e isso é o que mais me custa.
Sem imagem de perfil

De Ana Gonçalves a 15.11.2011 às 00:53

Ainda bem que têm esse apoio. Eu sei que noutras zonas, mesmo de Sta Maria, tal existia, mas Medicina 4 era para esquecer a esse nível (há cerca de 7/8 anos, tudo pode ter mudado, e espero que tenha).

Eu também sei que a certa altura desejar que vivam mais um pouco já parece egoísmo , na presença de tanto sofrimento. Olha, desejo-vos um milagre (de uma forma estupidamente optimista): uma cura completa e sem dor. Foi o que desejei até ao ultimo dia da minha avó, nas mesmas condições, embora soubesse que as hipóteses eram quase nulas, porque peço sempre o melhor, mas preparando-me para o pior). Se tal não for possível , o que quer que aconteça, que seja em paz e conforto.

Um dia mais tarde saberás que estiveste lá, ao lado dela. A mim ajudou, depois, saber que fiz tudo o que me foi possivel para a apoiar. Força para ti, para ela e para a restante familia.
Imagem de perfil

De jonasnuts a 15.11.2011 às 08:43

Obrigada :)
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 15.11.2011 às 10:22

Pela 1ª vez concordo com a jonas. Não tenho quaisquer problemas em dizer-lhe isso mesmo, porque também sou feito dessa têmpera.
Ao mesmo tempo expressar-lhe muito sinceramente a minha solidariedade.

MAC
Sem imagem de perfil

De Izzie a 15.11.2011 às 11:42

Jonas, lamento muito. A tua avó tem a idade da minha, e está a passar por aquilo que todos os invernos tememos que aconteça. O comportamento da médica é inqualificável; toda a gente sabe que há falta de camas, mas a doutora não é gestora, é médica, e tem é de se preocupar com os cuidados que o paciente precisa e em dar toda a informação necessária à família.

A minha avó esteve o ano passado em Santa Maria, fractura do colo do fémur, e foi muito bem tratada. Infelizmente trata-se de um hospital gigantesco, com demasiadas situações e pouco pessoal para acudir a tudo, mas fizeram tudo o que podiam. Foi uma desorganização e esteve quasde uma semana à espera de cirurgia, porque há pouca disponibilidade de salas e equipas, e há sempre urgências a passar à frente. Enfim, mas em resumo, não há razão de queixa do tratamento, e havia voluntários que eram uns amores.
O meu pai também passou este ano por Sta maria (oftalmologia) e teve um tratamento 5*, nem no privado, juro.
Isto para dizer que, se puderes, tenta por lá. Sta Maria tem melhorado imenso.
DE qualquer forma, muita sorte, as melhoras para a tua avó, e que se tiver chegado a sua hora, que seja sem sofrimento. Ainda assim, torço para que melhore e ainda vos presenteie com mais tempo seu por cá.
Beijinho.
Imagem de perfil

De jonasnuts a 15.11.2011 às 15:44

2 mantras, pelos dias que passam: "um dia de cada vez", "que seja sem sofrimento". :)
Sem imagem de perfil

De rita maria a 15.11.2011 às 13:37

Toma lá um beijinho grande para ti.
Imagem de perfil

De jonasnuts a 15.11.2011 às 15:43

Obrigada..... os teus posts têm ajudado :)
Sem imagem de perfil

De Flavia PM a 16.11.2011 às 10:54

Força! Muita Força!
Sem imagem de perfil

De Isabel Contreiras a 16.11.2011 às 11:30

Lamento muito pela sua avó. Concordo totalmente consigo... chega um momento que desejamos que seja rápido para não sofrerem mais. Passei por isso em Setembro com um tio perto do meu coração... felizmente só posso dizer coisas boas dos médicos, enfermeiros (mais dos enfermeiros do que das enfermeiras... mas isso dava para outra conversa!) e auxiliares do serviço de pneumologia do hospital Fernando Fonseca e nunca esconderam que era uma questão de dias para ele morrer.
Passei muitas e muitas horas com o meu tio na semana que lá esteve internado e estou feliz de o ter acompanhado nos seus últimos dias...

Beijos.
Sem imagem de perfil

De Pudget a 16.11.2011 às 12:21

Os medicos, independentemente do pais onde estejam, sao por mim vistos como os pontas-de-lanca prima-donas da ciencia, acima de tudo porque sao eles que colhem com gloria assambarcadora os frutos dos golos quie marcam, de jogadas em que TODO o trabalho tecnico-tactico e feito por uma equipa por tras do medico que raramente recebe o premio e os louros do trabalho que produz. O que e que isso quer dizer? Muito simplesmente que e dai que surge a arrogancia brutal com que se adornam quando nos veem falar como se de Deuses se tratassem e que nos disparam improperios e despotismos que julgam sermos obrigados a aceitar. Contra os medicos so existe uma unica arma, fraca mas a unica que temos em maos, apresentar queixa do seu comportamento! E chegara o dia em que o bom senso imperara ou entao o sistema que ja e caduco conhecera contornos que muito simplesmente levarao ao colapso de confianca. Um dia veremo-nos obrigados a pagar para sermos tratados com um minimo de respeito, cortesia e dedicacao. Ate sermos uns tristes medigos de um sistema que acha que ja faz muito por nos por apenas nos cobrar taxas moderadoras, tudo o que nos resta, e esta corja de despotas que ha dezenas de anos se julgam embaixadores de uma divindade qualquer na Terra.

Comentar post


Pág. 1/2






Arquivo