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"Finge que não ouves"

por jonasnuts, em 03.09.13

Eram estas, as recomendações da minha mãe, e da minha avó, quando eu, miúda miúda miúda, lhes fazia queixas dos homens que me diziam coisas quando eu passava.

 

A minha avó ia mesmo mais longe. Não passas por esse caminho. Dás a volta.

 

Mas eu, já na altura com pelo na venta, encanitava-me que EU, não estando a fazer nada de mal, tivesse de mudar os meus passos, por causa duns gajos, muitos com idade para serem meus pais e até mesmo meus avôs, que abancavam à porta da oficina da Neolux, na rua da cidade da Horta, quando eu passava para ir almoçar a casa da minha avó, à Rebelo da Silva.

 

Quando eu digo que era miúda, miúda, miúda, estou a referir-me à idade em que me foi autorizada a ida a pé, do colégio até casa da minha avó. 7º ano, portanto, 11/12 anos.

 

E não me refiro a "oh, és tão linda", mas sim a palavras e frases bem mais explícitas. Diziam o que gostariam de fazer, com que parte do seu corpo, com que parte do meu corpo. E sem lirismos.

 

Finge que não ouves, diziam-me. E eu, miúda, roía-me por dentro, e não dizia nada. Mas ficava a pensar.

 

Foi um caminho que fiz muitas vezes.

 

Resolvi o tema, anos mais tarde, mas ainda menor, quando farta de me fingir de surda, parei, enfrentei o mais ordinário e lhe respondi à letra " e tu tens lá equipamento para fazer isso tudo...... com essa idade, já nem consegues levantá-lo. Da próxima vez que eu passar aqui, se ouvir um ai, entro pela fábrica adentro e faço queixa ao vosso patrão. Porcos de merda. Vão falar assim às vossas filhas, que devem estar mais habituadas".

 

Com 14 anos. E foi remédio santo. Nunca contei à minha mãe, nem à minha avó. Mas resolvi o problema, à minha maneira.

 

Anos mais tarde, já a trabalhar, voltei a resolver o problema. Num trabalho grande que tinha para adjudicar, onde um dos fornecedores a concurso era a Neolux, expliquei que não seriam eles a fazer o trabalho, e expliquei porquê. O senhor não percebeu. Aposto que se fosse uma gaja, percebia.

 

Ficou tudo resolvido.

 

Mas não me esqueci.

 

Não quero que se criem leis para criminalizar o assédio verbal (que às vezes até ultrapassa o verbo e vai ao físico), mas quero que se torne socialmente inaceitável este tipo de comportamentos.

 

Não tenho uma filha, mas se tivesse, não lhe diria para fingir que não ouvia.

 

A Helena explicou melhor isto tudo que eu tentei dizer. Aqui.

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15 comentários

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De pedrocs a 03.09.2013 às 21:54

Mas... Este tipo de comportamento já é socialmente inaceitável. Ele não vai é parar, enquanto não formos uma nação mais bem educada. E, pelo andar da carruagem, nunca vamos ser essa nação.
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De jonasnuts a 03.09.2013 às 22:00

Não é socialmente inaceitável. É andares na rua, atento, e percebes que é socialmente muito bem aceite. A sério..... fala com gajas e pergunta-lhes. Quanto mais novas, melhor (aparentemente há uma certa preferência por quem é mais novo - deve ser por as acharem presas mais inofensivas).

E como é que passamos a ser um povo mais bem educado se, socialmente, aceitamos este tipo de coisa? :)

Eu sei como é que tu educas os teus filhos (enfim, presumo), mas o pai que dá porrada na mãe, achas que a seguir vai dizer aos filhos "olhem lá, que não se deve agredir pessoas, seja lá qual for o sexo, mesmo que apenas verbalmente".
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De AB a 04.09.2013 às 14:06

Olá Jonas. O que descreves acontece, e não são só as mulheres a sofrer humilhações, embora sofram para aí uns 99% dessas. Lembro-me de ser puto e passar com a namoradinha por grupos de gandulos que eram mesmo ordinários, do tipo Neolux. E não tem piada ser sovado em frente da namorada - e talvez não erre se te disser que na situação em que puseste os tipos com dono, um rapaz de 14 anos teria levado umas bolachas na cara sem apelo nem agravo.
O que eu não percebo é o grau de culpa de quem trabalha ou manda na Neolux uma porção de anos depois. Pelo que percebo não chegaste a falar com o patrão, será que o tipo sabia? Durante muito tempo ouvi os pedreiros que trabalhavam na casa junto à minha dizer as maiores atrocidades às miúdas que entravam e saíam da escola próxima, mas nunca quando o patrão estava presente.
Não sei se no teu trabalho és superiora hierárquica de alguém, mas se sim, tens a certeza de que nenhum dos teus subalternos ou colaboradores manda piropos parvos? E como te sentirias se a empresa pela qual dás a cara, ou o teu departamento, perdesse um trabalho por algo de que nem tinhas conhecimento?
Digo isto porque me aconteceu ver-me em apuros muito sérios devido aos piropos que um tipo que eu transportava para casa mandou à mulher dum vendedor ambulante. Eu nem ouvi nada, e por pouco não levava uma navalhada.
Embora suceda frequentemente, não é justo pagar pelos erros dos outros.
Abraço.
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De jonasnuts a 04.09.2013 às 14:14

O senhor não percebeu porque achava que era socialmente aceitável :)
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De AB a 04.09.2013 às 17:38

Não percebi que o tipo era bronco : )
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De Helena Araujo a 04.09.2013 às 20:26

Grande mulher, Jonas!
Infelizmente, nem todas têm a tua coragem.
Seria bom que nenhuma precisasse de ter a tua coragem.
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De jonasnuts a 05.09.2013 às 01:11

É isso mesmo, Helena. Porque é que uma gaja, apenas para andar na rua, precisa de ter coragem, ou precisa de pensar duas vezes no que vai vestir?
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De AB a 06.09.2013 às 13:19

Bem, o teu post "Mais cú que miolos" pode ajudar a lançar alguma luz sobre este tema?
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De Rui a 05.09.2013 às 01:27

Gostei muito. Tens aqui um outro relato corajoso e inspirador -
http://tenureshewrote.wordpress.com/2013/08/26/teaching-naked-part-1/

" Now, here’s a good rule of thumb if you are unsure whether you are harassing or bullying someone—ask yourself: would you do or say this to your mother, sister, or eventually your daughters? If the answer is no, then, it is inappropriate to do or say to a person you do not know very well."
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De jonasnuts a 05.09.2013 às 01:33

Percebo o ponto de vista e o argumento, mas não concordo muito com ele, na sua essência.

E não sei se me consigo explicar.

Fazer o comparativo familiar é fácil, e toda a gente percebe. Não farias isto a uma filha tua, ou à tua mulher, ou à tua mãe. Mas isto põe sempre a mulher numa posição mais frágil, ou de submissão. Não faruas porque é TUA mãe (irmã, filha, mulher, etc.).

O meu argumento é ligeiramente diferente.

Não deves fazer, porque não se faz. A ninguém. Seja homem, mulher, novo ou velho. Não se faz.

Eu, verdadeiramente, acredito que apenas quando sentirem o seu remédio na sua própria pele, é que percebem. Para a grande maioria, nunca acontecerá. Vão morrer burros, evidentemente.
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De jonasnuts a 05.09.2013 às 01:34

O faruas é um faria, com sono.
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De jonasnuts a 05.09.2013 às 01:34

E o faria, na realidade, é um farias. Mas que se lixe.
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De Helena Araujo a 05.09.2013 às 07:22

Não gosto de usar o argumento "mulher da minha família" porque os piropos se podem inscrever no campo da sedução entre pessoas civilizadas, e aí são perfeitamente legítimos. Ora, nenhum homem saudável se lembraria de seduzir a mãe, ou a filha.
De modo que se podia reformular a proposta: " would you like that somebody do or say this to your mother, sister, or eventually your daughters?"
É uma regra fácil de aplicar, não fosse o problema que a Jonas aponta: a dignidade da mulher medida pela dignidade do homem que é o seu "proprietário".
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De Helena a 07.09.2013 às 02:29

Mas porque é que tantas, tantas( ex<: quadripolaridades) mulheres defendem esta merda??? Não acredito que gostem, é pior que usar burkha! Que mal é que nós fizemos para ter que aturar estas merdas?
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De urreivainu a 10.09.2013 às 15:25

" Num trabalho grande que tinha para adjudicar, onde um dos fornecedores a concurso era a Neolux, expliquei que não seriam eles a fazer o trabalho, e expliquei porquê." O que eu sorri a ler isto.... Parece-me uma maneira bastante interessante de (contribuir para) mudar mentalidades.

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