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A evolução das indústrias #pl118

por jonasnuts, em 10.01.12

O meu trisavô, Francisco Luís, era ferreiro do Marquês de Santa Iria, a mulher dele, minha trisavó, Leonor do Espírito Santo, era professora e parteira.

 

Presumo que no tempo do meu trisavó e da minha trisavó houvesse muita necessidade de ferreiros e de parteiras (embora menos de professoras), e que eles tenham tido estas profissões porque havia procura deste tipo de competências. Com o passar dos anos, o número de cavalos, mulas, e demais animais que precisam de ferreiro foram diminuindo, sobretudo nas áreas mais cosmopolitas, e, com a chegada do automóvel e dos veículos motorizados, a profissão de ferreiro não se extinguiu, mas especializou-se, modernizou-se, evoluiu, e decresceu para números nada comparáveis aos do auge dos cavalos e dos coches e das carroças.

 

Não vou descrever aqui a minha história familiar, embora conseguisse, sem grande esforço e sem ter de subir muito na árvore genealógica, encontrar fotógrafos. A fotografia antigamente, era coisa importante. Só acessível às classes endinheiradas, e mesmo assim, em dias de festa. Operar uma máquina fotográfica era coisa especializadíssima, e o fotógrafo deslocava-se a casa das pessoas importantes, e estas, empinocavam-se todas, para o retrato. Mais tarde, começaram a aparecer as primeiras máquinas fotográficas para uso doméstico. Custavam obscenidades, continuava a ser apenas para famílias ricas, mas a coisa compunha-se. Ainda assim, devido ao custo do equipamento, o mercado dos fotógrafos profissionais manteve-se. Deixaram a itinerância das casas ricas, abriram lojas e foram à descoberta do país, por itinerários mais rurais. Mais uns anos, mais evolução tecnológica, mudanças sociais que tornaram os pobres menos pobres (mas os ricos mais ricos, não interessa), e criou-se uma classe média, burguesa, que compra máquinas fotográficas. Não só estas estão mais baratas, como já há mais gente a ter mais dinheiro para gastar. Meados do século XX, e as máquinas fotográficas fazem parte do dia-a-dia de qualquer família. Senão todos os dias, pelo menos nas férias, e na celebração de ocasiões especiais. Os fotógrafos tinham começado a perder mercado. Evoluíram. Criaram-se áreas de especialização dentro da fotografia. Acho que, nessa altura, não passou pela cabeça de ninguém, taxar as máquinas fotográficas, ou as revelações, ou os rolos, para compensar a diminuição de mercado de trabalho e de negócio dos fotógrafos profissionais. Mas, andando com a história. Passemos aos dias de hoje.

 

A fotografia faz hoje parte da nossa vida por dá cá aquela palha. Longe da ocasião cerimoniosa de antigamente, tiramos hoje uma foto por tudo e por nada, com máquinas melhores, piores, assim assim e mais ou menos. Cá em casa, deve haver cerca de 10, para falar apenas nas digitais. Ah, pois, esqueci-me disso. O advento do digital. Obviamente, revolucionou a fotografia como a conhecíamos. Mesmo na era áurea da foto analógica (chamemos-lhe assim), aquela coisa de premir o botão tinha muito que se lhe dissesse. O enquadramento, a luz, se estava tudo bem, se eram as pessoas certas, o momento correcto. Assim como assim, o resultado não se via logo, e a coisa ficava carota. E, no fim do rolo, mandar para revelar, e esperar umas semanas, até que estivesse pronto. Sim, que essa coisa da revelação primeiro em 48 horas, depois em 24, e, mais tarde, numa hora, são modernices recentes.

 

Com o digital tudo muda. Não só as máquinas são MUITO mais baratas, como não há aqui revelações metidas ao barulho, o resultado é imediato, e tiram-se fotografias a torto e a direito. Muitas marcas evoluíram, muitos novos serviços foram criados, muitos novos fotógrafos revelados (sim, foi propositado), muitas paixões descobertas. Houve, na indústria da fotografia, uma revolução tecnológica que uns conseguiram acompanhar, outros não. A Kodak, curiosamente a empresa que começou o digital, está à beira da falência. Outras, floresceram, apanharam a boleia dos tempos, souberam ler os sinais, optaram pela estratégia certa, investiram na direcção correcta.

 

So far.... ainda não ouvimos falar de taxas em cima do digital, para proteger o modelo de negócio do "analógico".

 

A fotografia não desapareceu. Nem como indústria, nem como arte, nem como forma de expressão, nem como hobbie. Criaram-se nichos. O hype à volta da Polaroid é um bom exemplo, ou a Lomografia.

 

A produção "caseira" está viva, recomenda-se, e, ao contrário do que muitos disseram, faz aumentar a procura, a partilha, a troca. O Flickr, que nem sequer é o maior alojador mundial de fotos (esse é o Facebook, claro), celebrou no passado 4 de Agosto (grande e belo dia) a entrada nos seus servidores da fotografia 6.000.000.000.

 

Nem sequer vou referir a importância desta capacidade de registarmos e de imediato transmitirmos uma imagem, coisa que é fácil com qualquer telemóvel vulgar, nos dias que correm. É lembrarem-se qual foi a primeira foto que apareceu, quando um avião aterrou no Hudson. Ou quando aconteceram os atentados em Londres. Não foram os profissionais, esses chegaram mais tarde. Fomos nós.

 

E, no meio disto tudo, onde é que estão as taxas para proteger o modelo de negócio que o tempo se encarregou de dizimar? Não estão. Com a evolução tecnológica e das mentalidades, a Indústria Fotográfica esmoreceu? Pelo contrário. Uns sobreviveram, outros nasceram, outros cresceram, outros morreram. É assim. Faz parte. Estou certa que qualquer pessoa se lembrará, sem grande esforço, de indústrias, profissões ou actividades que, numa determinada época faziam sentido, e que, com o tempo, deixaram de fazer. Os sapateiros, a distribuição alimentar, a indústria do vestuário (ainda há modistas e alfaiates, ou estão todos a viver à conta das comissões que o pronto-a-vestir lhes paga?). Apareceram outras. Novas formas, novos modelos. A Humanidade evolui, desenvolveu-se. E isto é assim na maior parte dos casos. E é assim que deve acontecer.

 

Quais são as excepções?

 

As excepções são as indústrias que detêm forte poder de lobby, e que, não conseguindo manter a validade dos seus modelos de negócio através da relevância dos seus serviços e produtos, pressionam, gastam dinheiro (rios de dinheiro), para manter vivos os modelos que não subsistiriam exclusivamente através dos seus méritos. Legislam pois então. É (também) para isso que servem os lobbies (forçam, compram, pressionam, chantageiam, whatever, who cares) para obrigar os poderes instituídos a criar leis que lhes protejam o negócio e o estilo de vida. À custa do mexilhão que, claro está, somos nós todos, o povinho.

 

Pessoas dispensáveis, serviços inúteis, parados no tempo, que são travões de nós todos e do desenvolvimento.

 

E é para isso que serve esta lei 62/98, actualizada em 2004, e que está agora a ser debatida na Assembleia da República com o nome de PL118/II, no sentido de ser ainda mais agravada (e vai pesar nos nossos bolsos, não tenham dúvidas). Serve para que os tais poderes instituídos se mantenham, um pouco mais, a travar-nos os passos, e enriquecendo ainda mais pelo caminho.

 

Não se iludam com a história da carochinha de que coitadinhos dos autores e dos artistas. Os criadores e os artistas não são perdidos nem achados no meio desta história, apesar de ser em nome deles que tudo isto vai passar. Que têm de ser remunerados pelo seu trabalho e pelas suas criações. E têm, mas não é com isto que isso vai acontecer. Nem com isto nem com esta lei idiota, que apenas vai servir para que os mesmo de sempre, se encham à custa de todos, artistas e criadores incluídos. É verdade que ainda não vi nenhum a manifestar-se contra esta PL118, mas a verdade, é que também ainda não vi nenhum artista ou criador a defendê-la. Assim, a dar entrevistas e a dizer, seriamente, porque é que acha que isto faz sentido sem que, pelo caminho, atropele os direitos e as liberdades daqueles que são o seu público, os seus clientes. Não vi, nem ouvi. Porque será que anda tudo tão caladinho?

 

A lei vai passar, uma alteração aqui, uma alteração aqui, para corrigir erros técnicos grosseiros e para calar alguns mais afoitos que têm falado acerca do assunto, mas pouco mais. E daqui a uns tempos, vem a ACTA (que o PSD está a preparar, caladinho e na surra) e o português lá vai andando, e vendo a casa dos segredos e os outros que emagrecem, feliz da vida, assim como assim, dinheiro para manter as sanguessugas não vai faltando, parece.

 

Crise? Qual crise. Crise a sério e as pessoas andavam em cima da Assembleia da República, a chafurdar nas coisas que vão ser votadas. Descobriram-se erros grosseiros nesta proposta que, a serem aprovados (e estiveram muito perto de serem aprovados na generalidade), tornariam incomportável a compra dum simples telemóvel, daqui a 2 anos. Quantos mais erros grosseiros estão neste momento na Assembleia da República à espera de ser aprovados? Não sei. Deu-se por este. Há-de haver outros.

 

Crise? Qual crise? A comunicação social digladia-se em guerras de aventais e quejandos, sobre as quais não tem qualquer poder de influência. Ahhh, mas é uma cacha, e a outra do jornalismo de investigação que encontra não sei quem que chacinou não sei quantas, mas afinal já não chacinou ninguém, e o povinho lá vai, anestesiado, com as novelas, as de ficção e as outras.

 

Crise? Qual crise?

 

A única que vejo, é a dos valores. O resto, vem por arrasto.

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4 comentários

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De Nelson Cruz a 11.01.2012 às 00:30

Não se taxaram de facto as máquinas fotográficas, rolos ou revelações, para compensar os fotógrafos profissionais. Mas por exemplo em Inglaterra, quando apareceram os automóveis, a certa altura aprovaram uma lei a dizer q tinha de ir uma pessoa uns metros à frente, a pé, com uma bandeira vermelha. E tinham de dar sempre prioridade aos cavalos para não assustar os pobrezinhos.

Não eram os cavalos os assustados. Mas serviram de desculpa, tal como hoje os autores e artistas. E todas estas leis me fazem lembrar inevitavelmente da bandeira vermelha. Salvou os cocheiros? Não. Serviu para alguma coisa? Nada de bom. Só para atrasar o progresso inevitável...
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De Jose Gaspar a 11.01.2012 às 11:07

Muito bom uma vez mais. Simplesmente genial e descreve bem os interesses que os portugueses têm no momento. Masturbam-se a ver esses programas de TV como se fosse a maior foda da vida deles. Quando há cá fora um mundo muito mais interessante e que vale a pena lutar.... mas claro que isso dá trabalho e não é para todas as cabeças. Continua a escrever assim.... estou completamente de acordo com o que foi dito. Mas nunca se esqueçam de pagar pelos conteúdos sejam eles em formato CD, DVD, whatever enquanto se trava outra batalha para que esses lucros cheguem a quem de direito. Mas não é pagando taxas, é pagando pelo seu trabalho de artista.
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De António Rodrigues a 11.01.2012 às 15:22

Há muitos anos atrás, o negócio do gelo florescia. Depois alguém inventou o refrigerador (vulgar frigorífico). Dos que faziam do gelo o seu negócio, uns adaptaram-se: trocaram as máquinas de gelo por máquinas de trabalhar cobre e passaram a fabricar peças essenciais aos frigoríficos. Anos mais tarde lançaram os seus próprios frigoríficos, já mais avançados.
Os outros simplesmente morreram. Agarrados ao modelo de negócio que sempre tiveram como garantido e do qual não quiseram abrir mão, ou arriscar/inovar o que quer que fosse.

Ah... Nenhum gelo ou frigorífico foi taxado!

Transportando a estória para os dias de hoje, é evidente a analogia com os videoclubes, e negócios semelhantes.
WILL THEY EVER LEARN?!
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De António Manuel Dias a 11.01.2012 às 22:30

E até nem é como se novos modelos de negócio não existissem, como o PledgeMusic (http://www.pledgemusic.com/)...

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