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Jonasnuts

O império dos sentidos

É raro andar de transportes públicos. Talvez por isso, quando o faço, deixo-me interpelar por coisas que se calhar são óbvias e descartáveis para as pessoas que estão habituadas à rotina do metro, do eléctrico, do autocarro, do comboio, do barco. Se calhar a maioria das pessoas tem a capacidade de se abstrair do que a rodeia. Fazerem como eu faço quando entro no carro, ligo o rádio, ponho o telemóvel a jeito, e ligo o piloto automático. Estou em todo o lado menos ali.

 

Mas entrar numa estação de metro é, para mim, uma coisa rara nos dias que correm. Por isso continuam a fascinar-me as idiossincrasias das pessoas. As diferentes formas de vestir, de andar, os olhares meio vazios, que caminho tomam, onde é que se posicionam na estação, se falam ao telefone, se ouvem música, se vão carregados, enfim...os detalhes.

 

Há um detalhe que chama mais por mim que os restantes. Os sapatos. Não sou vidrada em sapatos, note-se. Mas não cessa de me espantar a diversidade sapatal e, sobretudo, o grau de sacrifício a que, principalmente as mulheres, estão dispostas. É vê-las a passar, com saltos mais altos ou mais baixos, mais agulha ou mais cunha, mas saltos. Como é que alguém, por gosto, monta nuns sapatos de salto alto de manhã, vai para o trabalho de transportes públicos, anda nas ruas, cumpre as suas tarefas, e regressa ao fim do dia, nos mesmos saltos, nos mesmos transportes públicos. É extraordinário.

 

Depois chega a carruagem do metro. Ouvem-se os tacões no chão da estação apressando-se para ficarem mais perto do sítio onde a porta vai parar. Sigo aquele som, e olho fixamente para os exemplos que me parecem mais dolorosos. As portas abrem-se. Saem os passageiros e esvazia-se o espaço.

 

Entro com os meus ténis, elas com os seus sapatos de salto.

 

E nesse momento esqueço-me de tudo, o cheiro assalta-me, de repente toda eu sou nariz. Já não consigo usar nenhum dos meus outros sentidos. Vão-se os sapatos, os saltos, as roupas, os movimentos e os detalhes, fica apenas o fedor exalado pelo sovaco colectivo da urbe.

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