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Jonasnuts

Jonasnuts

Abracemo-nos, portanto

Jonasnuts, 28.11.20

Hoje acordei com esta atravessada.

A falta que sinto dos abraços. 

 

O abraço é o gesto universal do amor, da paixão, do carinho, da ternura, do aconchego. É o colo sem braços, é o beijo sem boca, é o sexo sem cópula. É maternal, é fraternal, é sexual e é visceral.

É uma dança ritmada. Marca o ritmo. Eu acompanho. É diverso e poderoso para acomodar tudo e todos. 

Quando gostamos mesmo de alguém, queremos o seu abraço e queremos abraçá-lo.

Não é desde sempre, que tenho esta noção. Ou melhor, é desde sempre que tenho esta noção, mas não o seu usufruto. Nunca fui de grandes abraços.

Tenho alguns abraços no meu currículo, que tenho, mas, por exemplo, o meu melhor abraço, o que está em primeiro lugar destacadíssimo no top de todos os meus abraços memoráveis, é um abraço que vivi do lado de fora. E tenho tantas saudades desse abraço.

Temos também os abraços irrepetíveis, porque a vida é feita de irreversibilidades. São os que custam mais, naturalmente. É difícil não ter saudades do que se teve e que já não se pode ter.

E, neste momento, claro, os abraços que gostaríamos de dar e não podemos, por uma razão ou por outra. Há mais do que uma razão. Esquisito, estranho, contraditório, que um gesto de amor possa também ser um princípio de um fim.

Estes abraços que andamos a acumular, alguns desde março, alguns desde muito antes, e que estão ali, pendentes, a pesar-nos cada vez mais nos braços. Cada vez mais amontoados. Cada vez mais urgentes. Cada vez mais prementes.

Dei alguns abraços, mesmo assim. O desgraçado do puto é o destinatário de todos os abraços que já não consigo deixar de dar. Tem-se portado muito bem. Suspeito até de que gosta um bocadinho.

Também há os abraços virtuais, claro. Não sendo a mesma coisa, que não são, podem ser, mesmo assim, muito aconchegantes e transmitir exatamente aquilo que se pretende. Fica a faltar o calor, a força, o toque, a urgência, mas o sentimento está todo lá. Tenho recebido alguns. Ficam ali a meio caminho entre os que estão na fila dos pendentes e os que demos de facto. 

Ando a acumular abraços na lista dos pendentes há muito, muito tempo. 

Quando tudo isto terminar, e o meu isto é mais do que o isto que nos toca a todos neste momento, acho serei muito mais abraçadora.

Tenho muita escrita para pôr em dia. Muito abraço em atraso. Muito abraço atravessado.

E isto não é um post "dá-me um abraço", é um post "encosta-te a mim".

 

Abracemo-nos, portanto.

O pacote de sal

Jonasnuts, 27.11.20

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Sou uma pessoa rápida. A velocidade atrai-me, em quase tudo. A condução é um exemplo óbvio, mas não é dessa velocidade que falo. 

Velocidade de pensamento. É essa a velocidade a que me refiro. Velocidade na tomada de decisões. Decido muito rapidamente. Sempre foi assim. E gosto de pessoas rápidas. 

Um jogo de ping-pong entre duas pessoas com a mesma velocidade é muito estimulante.

Tenho aprendido ultimamente que ter alguma calma nas decisões que tomo tem as suas vantagens. Identificar um dilema, um problema, uma dúvida, uma hesitação e, em vez de tomar a decisão rápida que me apetece e ir por aí afora, passo agora, às vezes, a travar-me, a obrigar-me a ter calma, a identificar todos os cenários possíveis, todos os desfechos, todas as vantagens e desvantagens, todos os meus possíveis estados de espírito e emoções. Porque às vezes, naquele momento, não estou a ver as coisas com toda a clareza, ou estou no calor do momento, ou sou, simplesmente, precipitada.

 

Não é fácil, este treino, por isso desenvolvi uma estratégia. Implica só um bocadinho de disciplina, mas nessa matéria não tenho grandes dificuldades. E só se aplica às coisas sobre as quais tenho poder de decisão. Há coisas que são decididas fora de mim, quanto a essas, nada a fazer, é acompanhar o ritmo da música que toca. Há decisões em que não sou eu o maestro.

Mas, para as decisões em que sou eu que mando e que tenham um impacto razoável na minha vida, a estratégia é simples, uso o método do saleiro.

Sobre o que tenho a decidir, só decido definitivamente, quando tiver terminado todo o sal que está no saleiro da cozinha. E o meu saleiro é grande, leva 1kg de sal.

Se num dado momento me apetece antecipar o prazo, cozinho com mais sal, se me apetece demorar-me um bocadinho mais, cozinho com menos sal. 

Este método tem-se revelado muito interessante, sobretudo se eu comparar a decisão que me apetece tomar no imediato com a decisão que acabo por tomar quando o sal chega ao fim. Às vezes é a mesma, e o processo apenas a reforça. Às vezes é diferente.

No limite, até posso perceber que não havia nenhuma decisão para tomar.

Acabei o sal ontem. Já voltei a encher o saleiro. Sem decisões pendentes.

 

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Personal trainer, procura-se, enfim, mais ou menos

Jonasnuts, 22.11.20

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Com tanto personal trainer por aí, esta agora vai escrever um post à procura de um personal trainer?

 

Nim.

 

Porque eu não quero uma pessoa que, depois de conhecer os meus objetivos, me diga que exercícios devo fazer, e me acompanhe nesse processo, corrigindo-me as posições. Já tive disso. Não adorei a experiência. Odeio fazer exercício com pessoas a olhar para mim.

 

Eu quero muito mais que isso, acho até que quero algo que não existe.

Eu quero alguém que olhe para mim, para a minha compleição, para o meu estilo de vida, hábitos alimentares, etc..., e me oiça sobre o que quero em termos de saúde,  em termos atléticos e estéticos, e debata comigo, que contribua para a identificação de objetivos exequíveis e respetivos prazos.

Alguém que saiba que quero remar e que me ajude a treinar para conseguir remar melhor enquanto, de caminho, me explique o que devo fazer para gerir as epicondilites. Alguém que me diga para tirar o cavalinho da chuva nas coisas em que for para tirar o cavalinho da chuva, e que me diga quais são os cavalinhos que posso e devo pôr à chuva. Alguém que vá comigo ao ginásio que frequento e me desenhe planos de treino que vão ao encontro dos meus objetivos e que eu possa fazer naquelas máquinas. Eu, específicos para mim. De preferência, de que eu goste. 

Alguém que perceba que eu gosto de dar chutos no saco de box (herança dos anos de karaté), e me desenhe um esquema que integre este tipo de exercício, por exemplo. Alguém que perceba que as minhas articulações são uma bosta e que impactos não são uma boa escolha (corrida é uma impossibilidade, para os meus joelhos de cocó).

 

Alguém que veja se preciso de suplementação (preciso) e possa fazer recomendações (eu depois cruzo com o as recomendações da minha nutricionista).

 

E me explique quais são os prazos mais razoáveis para alcançar esses objetivos e me ajude a identificar pontos intermédios. Reparem, eu quero que me expliquem, não quero que me digam. Eu sou uma freguesa que dá trabalho. Preciso de perceber as coisas.

 

E depois me desampare a loja durante 2 meses. 

Voltamos a encontrar-nos, avaliamos progressos, corrigimos, limamos arestas, e fico novamente por minha conta. De dois em 2 meses. Ou de 3 em três.

Este tipo de acompanhamento existe? Alguém tem uma pessoa assim? 


Porque isto é mais do quem um PT, não é? É assim, um bocadinho de tudo, PT, fisiatra, especialista em medicina desportiva, preparador físico, fisioterapeuta, nutricionista, e creio que algumas coisas mais.

Todas as pessoas com quem tenho falado, na minha procura por algo deste género, são ótimas, e bem intencionadas, mas só tratam do rame-rame, e querem muito tirar medidas e pesar e coiso e tal, e sugerem-me esquemas que já têm na sacola, iguais para toda a gente e, para isso, faço eu, que até agora tem estado a funcionar lindamente.

Alguém sabe do que falo? 

Alguém tem alguém assim?

Isto existe?

I'm on a mission :)

Mais vinho

Jonasnuts, 20.11.20

Não vos falei ainda do vinho que tem entrado na minha vida.
É um desejo antigo, saber um bocadinho mais sobre vinho, aprender a gostar sem exageros, para poder partilhar com amigos o prazer de beber um bom vinho. Diz que é fixe e eu quero experimentar.

A pandemia e o confinamento não ajudam, claro, que isto é uma coisa social, e a malta neste momento corta-se aos sociais mas, nada me impede de ir construindo a experiência, que é o que tenho feito, com ajuda de quem gosta de mim, e que me vai oferecendo o material. Os copos (tinto, branco e espumante), presentes surpresa que chegam de além fronteiras, aconselhamento especialista no Twitter e aquilo que me traz aqui hoje, uma descoberta recente de cujo conceito já estou fã e que mão amiga me fez chegar aqui a casa.

A WOME é, de acordo com o site,  a forma mais fácil e confortável de conhecer e beber bom vinho português. 

Ora, o conceito agrada, não é? Não pescando um boi de vinhos, é bom saber que há quem separe o trigo do joio, para que eu não tenha de me preocupar com essa parte. 

Eles escolhem, nós só temos de esperar pela entrega, para nos surpreendermos.

"A WOME Mystery Box nasceu para dar resposta a esse problema universal e que se torna também num momento de alguma ansiedade: a escolha de um vinho."

A tal mão amiga ofereceu-me um sneak peek que foi entregue aqui em casa há uns dias.

Fiquei fã. Porque não é só o salero de receber uma caixa toda catita, cheia de promessas de bons momentos, lá dentro vêm fichas informativas sobre cada um dos vinhos da caixa. Para quem gosta de saber mais ou para quem, como eu, está a aprender, é um luxo.

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Adorei e já acrescentei estas garrafas à minha garrafeira. 

Gostei muito da apresentação e do cuidado com que tudo está feito, com bom gosto e sem aquele palavreado demasiado técnico, que distancia uma pessoa do vinho que vai beber, que intimida. Nada disso, tudo muito boa onda.

Gostei tanto que vou usar para oferecer a grande maioria dos meus presentes de Natal. 
Bom gosto, requinte, e uma experiência. Eu ando numa de oferecer menos coisas e mais experiências, e a wome parece ser perfeita para isso.

Como calcularão, este post não foi pago, porque os senhores vendem vinho, mas não estão grossos, e não lhes passaria pela cabeça pagar a uma influencer que não influencia, porque não tem audiência deste segmento :)

Gostei do conceito, recomendo e vou usar para o meu Natal, é só :)

 

Os prazeres do Tejo

Jonasnuts, 15.11.20

aqui falei (auto-link) da minha estratégia de fuga para a frente, para gerir as epicondilites.

Dois meses depois, o relatório. 

As epicondilites estão cá, que estão, e depois de cada treino segue-se o ritual do gelo por 20 minutos, duche relaxante que me sabe pela alma, seguido de generosas doses de voltaren, que podia ter também a componente da hidratação, e assim ficava logo o servicinho todo despachado.
Mas estão melhores :)

Agora....... efeitos secundários de que não estava à espera; que me divertisse tanto. Que me desse tanto prazer, estar ali em sintonia com o resto de quem está a treinar, em movimentos ritmados, com cadência, que exigem alguma técnica (que estou a tentar aprender), e que são de uma exigência física razoável.

Faço dois treinos durante a semana, de 45 minutos a 1 hora de tanque, seguido de ginásio, para trabalho de músculos específicos e por fim os alongamentos finais. Sabem lindamente, os treinos semanais.

Mas, ao domingo é que é. Ao domingo, se as condições permitirem (e nem sempre permitem), saímos.

Desemprateleiramos o yolle de 8 (olha para ela, já a dar-lhe na linguagem técnica - um yolle), apoiamo-lo nos carrinhos, incluímos os remos e vamos até à doca. Depois vem a parte complicada, pelo menos para mim, que é pegar no yolle (e este, de que falo, é de madeira, não é de fibra) e à força dos bracinhos, levá-lo para baixo e colocá-lo na água. 8, mais um timoneiro.

Enfim, haja bracinhos e mãozinhas.

E depois, o que se segue, é maravilhoso. Vamos para o rio. E é inexplicável, o gozo que dá.
Esta manhã saímos por volta das 8h30 e regressámos quase duas horas depois. Não fui com o grupo do costume (que sai às 10), porque fui preencher um lugar vazio de última hora, no grupo das crescidas (as crescidas remam a sério, e esmifrei-me toda para as acompanhar).

Saímos da Doca de Santos, fomos até à Cruz-Quebrada, até se via a minha varanda, e regressámos.

Foi uma manhã absolutamente gloriosa, a famosa #morninglory.  Há muito tempo que não me sentia tão bem, nem tinha tanto prazer, numa manhã de domingo.

Quem está à procura de um desporto muito completo, num ambiente muito descontraído, relativamente barato e que proporciona estes passeios de Tejo, já sabem, é no Clube Ferroviário, ou falem comigo que eu encaminho e trato de uma aula de teste, para quem estiver interessado.

(Gajas....... muito pessoal que já pratica há um bocadinho mais de tempo - ficam com um corpaço).

Fiquem com o passeio de hoje.

 

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A minha varanda, que me proporciona tantos momentos de prazer, vista do lado da vista.

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Não se nota, mas dei cabo de uma unha :)

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Melhor manhã de domingo em anos :)

Explorando loopholes

Jonasnuts, 29.10.20

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Uma das minhas decisões de confinamento passou por prestar mais atenção ao teatro. 

Eu gosto de teatro, a minha mãe amava teatro (e fez, amador, durante anos), mas o stress associado (ai meu deus, e se eles se esquecem das falas e a coisa lhes corre mal?) nunca me deixou apreciar verdadeiramente a experiência.

 

Com os diretos do Bruno Nogueira, tive contacto com uma série de atores cuja existência desconhecia e, por arrasto e curiosidade, outros apareceram na minha vida, outros recuperei, e decidi que iria regressar ao teatro.

Esperava que o meu regresso fosse com a "Peça que dá para o Torto", do meu amigo Frederico Corado, mas só regressam em fevereiro.

Assim sendo, escolhi a Avenida Q. Por vários motivos. O primeiro dos quais, o facto da Sissi andar, desde sempre, a elogiar a Avenida Q, é logo meio caminho andado, e depois, depois por causa da Inês Aires Pereira, com quem contactei pela primeira vez nos diretos do meu homónimo, e que nunca mais larguei, salvo seja, e que é absoluta e fastasticamente brilhante :)

Estava decidido que ia ver a Avenida Q. Faltava o dia, e é aí que entra o loophole.

Inicia-se amanhã e dura até terça, um período durante o qual não podemos sair do nosso concelho de residência, porque, covid. Ora..... eu vou respeitar, claro, mas....... queria muito conseguir ir para o rio, no domingo. Uma pessoa rema no tanque, e corre tudo muito bem, mas no rio é outra loiça, e entristecia-me, ter de falhar o rio. Descubro então que, para se assistir a um espetáculo, pode mudar-se de concelho, desde que seja para o do lado, e caiu-me a ficha, que nestas coisas sou muito portuguesinha, e uma pessoa tenta sempre dar a volta ao texto.

Pois foi o que fiz, juntei a fome à vontade de comer, comprei um bilhete para ir ver a Avenida Q que passa a ser, em simultâneo, o meu salvo conduto para poder ir ao remo de manhã. Junto-lhe umas voltas de moto in between, para praticar, e é um domingo perfeito.

O mais que pode acontecer é alguém me mandar parar e perguntar-me onde é que eu penso que vou, para que eu, ufana, mostre às 9 da manhã o bilhete para uma peça que é às 18h00 mas, fã que é fã, abanca-se à porta da sala desde cedo, para ver entrar os artistas. Espero que acreditem.

Pronto, se alguém precisar de ir a Lisboa no domingo, é comprar um bilhete para ir ver a Avenida Q. 

 

Uma questão de língua

Jonasnuts, 26.10.20

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Quando era miúda, receber uma carta, no correio, causava uma enorme excitação. Ainda tive, durante uns tempos, uns pen pals, que me ajudavam a limar o inglês e me davam uma luz sobre formas diferentes de estar na vida mas que me proporcionavam, acima de tudo, o excitex de receber snail mail.

Esta troca constituía uma conversa, através da escrita.

Fast forward para 1994 e o excitex era receber um mail. Tão pouca gente tinha endereço de mail, na altura, que receber um mail era uma excitação. olgajoao@telepac.pt, foi o meu primeiro mail. E através do mail, conversei com muita gente. 

As coisas aceleraram e, hoje dia, usamos muitas ferramentas para conversar através da escrita, e são cada vez mais rápidas, mais instantâneas, mais imediatas.

Uma conversa através da escrita não substitui uma conversa de viva voz, ou cara a cara, claro. Há camadas adicionais de dados que nos chegam através do que ouvimos e do que vemos, do que cheiramos, do que sentimos, e que a escrita, por rica que seja, não consegue providenciar com a mesma intensidade e riqueza. 

 

Mas, há vantagens numa conversa escrita. Para já, é muito menos intrusiva, e pode alongar-se mais no tempo, não é? Eu recebo qualquer coisa agora, mas neste momento não me dá jeito, que estou numa reunião, pelo que devolvo mais tarde - ou devolvo durante a reunião, mas, numa mensagem escrita posso fazê-lo, de viva voz era mais chato, que me interrompia a reunião. As mensagens são assim uma espécie de sexo tântrico....... duram, duram, duram. Às vezes dias, às vezes semanas, há conversas que duram meses. Presumo que até mesmo anos.

Há vantagens adicionais nas mensagens escritas. Fica o registo. 

Enquanto que numa conversa presencial ou de voz, apenas podemos contar com a nossa memória, numa conversa escrita fica o registo. É uma conversa à qual acedemos as vezes que quisermos, está sempre disponível.

É verdade que o som de uma voz bem colocada estremece, que um piscar de olhos abala, que um toque perturba, que um odor inebria (enfim, neste caso nem sempre pelos melhores motivos), mas não é menos verdade que a palavra certa no sítio certo pode agitar, a conjugação certa do verbo pode impressionar e uma metáfora bem sacada pode fazer tremer as pernas e pode abalar as entranhas. Que abala.

Com a vantagem de que são conversas a que podemos regressar. Podemos ler, e reler, e treler as conversas e ver se o efeito que nos provoca continua a ser o mesmo, ou se certas palavras perdem ou ganham impacto, à medida que o tempo passa. Encontramos novos significados, lemos nas entrelinhas, escrutinamos propósitos, arrepiamo-nos outra vez, ou pela primeira vez. Nada disto é possível, ao vivo e a cores ou de viva voz. Outros meios, outros ganhos.

Salvo raras exceções, um erro ortográfico é um turn off desgraçado, um erro de concordância um desastre do qual se recupera com dificuldade e uma má construção uma calamidade sem retorno. Sobretudo se sistemáticos.

Vantagem, portanto, para os que sabem escrever, para os poetas, para os curiosos, para os que experimentam, para os que não hesitam em usar a palavra certa no momento certo, sem medos, porque todas as palavras são para escrever, se ajudarem, lá está, a agitar, a impressionar, a fazer tremer as pernas e a abalar as entranhas.

Há muito tempo que digo que saber escrever é essencial. 

 

É uma questão de língua.

E, como sabemos, as questões de língua são sempre fundamentais.

Porque nos abalam as entranhas.

A menina dança?

Jonasnuts, 16.10.20

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Danço? Sim, adoro dançar. Desde sempre. Nem sempre o fiz com a frequência que teria gostado.

Mas, agora, danço todas as manhãs, enquanto passeio a minha mais velha e oiço música pelo caminho. Sim, esta é uma dança discreta, porque não é a principal atividade que me leva ao Jamor e porque, mesmo sendo a uma hora onde há muito pouca gente, seria estranho, ver uma maluca ali a dançar, enquanto a cadela cheira os arbustos. Mas danço (e canto - don't ask) ao som da minha playlist matinal, com musicas escolhidas a dedo para instalar o mood do dia. Começo o meu dia fora de casa, a dançar.

Danço em casa, enquanto faço o jantar. Adoro dançar na cozinha. Outra hora do dia, outra playlist, o volume quase no máximo, é preciso não encanitar a vizinhança, mas o puto queixa-se e fecha a porta do quarto . Aqui já não precisa a dança de ser discreta e é um dos momentos do dia de que mais gosto. Como a minha cozinha não tem cortinas, presumo que possa ser um momento lúdico para os vizinhos também. Nunca dei por eles.

Danço, danço muito. 

Muita música, muito  diferente; não estou numa de Sting, por estes dias. Tenho investido em Billy Idol. Talvez siga para Bowie.

 

Sim, a menina dança.