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Walk down memory lane

por jonasnuts, em 10.06.16

SAPO - Paginas Gratuitas (1).jpg

 

Quem me conhece sabe que sou uma maricas. Sou uma maricas com pessoas, e sou uma maricas com projectos que de alguma forma marcaram. Sou uma maricas com os meus meninos. Sejam pessoas, sejam serviços.

 

Há projectos nos quais estive envolvida que fazem parte da minha vida. O Terràvista, claro, mas também as Homepages do SAPO, os Blogs do SAPO, a MEO Cloud e, num patamar um bocadinho diferente, o SAPO Fotos.

 

De todos, o único de cujo falecimento tive de tratar, foram as Homepages do SAPO. Já aqui falei disso (auto-link).

 

Fui para o SAPO em 2000, fazer as Homepages, juntamente com o Eduardo. Contrataram-me para fazer a coisa, e depois disseram, "não temos equipa técnica, trate disso". E eu tratei. Foi um no-brainer.

 

Parte do código já estava feito (e teve de ser refeito, diga-se), encomendado a uma empresa externa. Era uma bosta, percebemos logo. Com base na bosta de código que nos deram para trabalhar, renegociei logo o orçamento. Ainda me lembro, acabadinha de sair do ministério da cultura, onde todos os tostões eram contados, a minha alegria em reduzir o orçamento das Homepages numa catrefada de milhares de contos (era o que se usava na altura). Ninguém, no SAPO percebia porque é que eu estava tão satisfeita. Ok, o dinheiro não era um problema para eles, mas eu vinha formatada doutra maneira. O mail com a redução do preço esteve colado na parede atrás de mim durante uns anos. Ainda o devo ter por aí algures, numa gaveta.

 

Uma das coisas de que gostei no SAPO foi da autonomia Deram-me uma coisa para fazer, deram-me um prazo, que eu aceitei, e depois foram à sua vidinha e deixaram-me a trabalhar, sem grandes interferências.

 

O serviço foi lançado dentro do prazo estipulado, e foi um sucesso imediato. Claro. Pusemos ao nosso serviço aquilo que tínhamos aprendido no Terràvista, e pudemos fazer a coisa de raiz. Cometemos erros, evidentemente, mas foram erros diferentes dos primeiros.

 

Chateou-me o nome. Eu tinha anti-corpos com o SAPO. Porque o SAPO dizia que era o site português mais visitado, e na altura não era, na altura era o Terràvista :) Homepages do SAPO não era uma marca, ou melhor, era, mas era uma marca branca. Gostava que o serviço se tivesse chamado Páginas Tantas. Era para ter sido, mas o Dr. Baldino na altura tinha uma visão para os serviços do SAPO. E ele era tão teimoso como eu. E chefia. Homepages do SAPO ficou.

 

Aquela era uma altura (2000) em que a gestão de produto fazia mais ou menos tudo, excepto o design e o código. Os textos, o customer care, a promoção e comunicação, a dinamização da comunidade, a especificação de novas funcionalidades, a avaliação dos números. Tudo era feito por mim. Continuo a gostar de meter a mão na massa em todas as áreas de todos os projectos em que me envolvo. Continuo a fazer customer care (acho que toda a gente envolvida num projecto deve fazer customer care). Nas Homepages do SAPO nunca deixei de o fazer. Sou a única pessoa com acesso à conta de mail das Homepages (embora haja outras formas de contactar a equipa de customer care do SAPO).

 

Há muitas histórias. Muitas noitadas. Alguns dramas de utilizadores (dramas mesmo). Muitas alegrias. Muitos mails simpáticos. Alguns antipáticos, mas poucos. Muitas explicações do que raio era o html. E o Front Page. 

 

A autonomia nunca se perdeu. Houve um momento, algures entre 2002 e 2003 em que o Celso Martinho (fundador do SAPO, na altura director técnico, mas metia o nariz na parte da estratégia dos serviços propriamente ditos) queria capitalizar para o SAPO o sucesso das Homepages. As homepages do SAPO, o seu conjunto, tinham mais visitantes que a Homepage do SAPO. O Celso achou que seria boa ideia colocar uma "marca de água" em todas as páginas das Homepages do SAPO. Portanto, as pessoas tinham lá os seus ficheiros e os seus sites, e a plataforma colocaria uma marca de água com o logótipo do SAPO, que apareceria por cima (ou por baixo, como quiserem) de todas as páginas desse site. Um disparate.

 

Expliquei ao Celso que era um disparate e que as pessoas iriam reclamar (e com razão) e que em user generated content nunca queremos colocar a imagem da nossa marca, porque nunca sabemos o que é que lá vai aparecer. Os meus argumentos não o convenceram, e as várias reuniões que tivemos acerca desse assunto acabaram sempre da mesma forma "faz lá o que te estou a dizer, e põe a marca de água" e eu respondia, "ok, vou então tratar disso". Até hoje. De tempos a tempos lá voltava o Celso à carga, e eu dizia que havia muito para fazer (e havia), mas que trataria assim que possível. Pelos vistos, nunca foi possível. Hoje é brincadeira entre ambos. Às vezes pergunta-me "já trataste da marca de água?" e rimo-nos, ambos. Ainda hoje não concordamos sobre o impacto e a razoabilidade do pedido :)

 

A exploração comercial das Homepages também foi uma luta. Tantas visitas chamaram a atenção do Director Comercial, o João Paulo Luz, que queria à força banners, e pop-ups e pop-unders, e skyscrapers e o raio que o parta, a que eu sempre fui alérgica, sobretudo em user generated content. Neste caso a estratégia da promessa não cumprida não iria funcionar, e a recusa teve de ser feita de outra forma, sobre a qual não posso falar, mas que foi eficaz. Até ao fim, as Homepages do SAPO nunca tiveram nem publicidade nem marca de água.

 

Os destaques e as categorias eram uma labuta. Toda a gente queria destaque (ainda hoje, noutros serviços), e era frequentemente acusada de serem sempre os mesmos destaques (uma acusação comum, para quem quer que seja que faça destaques), e até acusações de receber subornos para atribuir categorias "óptima" e "excelente". Uma vez dei uma desanda tão grande a um utilizador que me telefonou com essa acusação, que todo o open space parou e ficou a ouvir, a achar que eu ia ter um ataque cardíaco de tão alterada que eu estava.

 

As Homepages autenticavam usando o NetBI. A única razão pela qual os servidores do NetBI ainda estão em funcionamento, é a existência das Homepages. Acho que agora o NetBI pode morrer também.

 

Aprendi muito, com as Homepages e com os seus utilizadores. Foram as Homepages que me permitiram, no SAPO, ganhar know how (e capital político) para fazer outras coisas, os Blogs do SAPO, por exemplo e, mais tarde, a MEO Cloud. 

 

Agora que estamos na fase final de descontinuação do serviço (ainda não terminou, ainda há customer care para fazer, tentando que o encerramento tenha o menor impacto possível), este post serve de homenagem ao serviço (eu avisei que sou maricas), de registo de algumas das peripécias e lutas de que os utilizadores não se aperceberam (nem tinha de se aperceber), e para agradecer, a todos os que de alguma forma me ajudaram a levar este serviço a bom porto.

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3 comentários

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De Daniel a 10.06.2016 às 21:56

É muito interessante saber o que se passou internamente e como o Sapo funcionava. O Sapo podia ter tido uma rede de publicidade portuguesa com as homepages, caso, a receita fosse partilhada com os users. Coisa que acredito nunca ter estado na mesa. Outra coisa que podia ter rentabilizado o servico seria o registo de domínios e mesmo publicidade no proprio Sapo... Muita coisa alternativa podia ter sido feita. Mas hoje nao faz sentido falar disso. ;)


Fico feliz que o adiar da marca de água fez com que ela nunca aparecesse. Um disparate. Os próprios domínios eram branding constante ao sapo...
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De jonasnuts a 10.06.2016 às 22:28

Eu não sou adepta de publicidade em user generated content, a não ser em contextos muito específicos (que não eram os das Homepages). Porque, na maioria dos casos, os utilizadores colocavam conteúdo com potencial de agradar aos anunciantes, mas havia casos em que isso não acontecia e era um risco.

A partilha de receita com os utilizadores, e um opt-in, eram a minha fronteira, se fosse esse o cenário, eu teria feito a coisa acontecer mas, o problema da partilha de receita (que estamos prestes a conseguir resolver) acarreta, para as empresas portuguesas, responsabilidades diferentes das que são impostas às empresas estrangeiras. No nosso caso, para pagarmos aos utilizadores, precisaríamos de um recibo verde. Não podíamos fazer como o Google, que paga a partilha de receita sem necessitar de documentação. A legislação funciona contra nós (ou a favor do Google, como queiras).

O registo de domínios esteve em cima da mesa, mas não era a nossa especialidade, além de que já havia, na casa (na altura, na Telepac) quem vendesse esse produto (a preços astronómicos, diga-se), e nós não queríamos, nem enganar os utilizadores (cobrando aquele exagero) nem canibalizar o negócio da Telepac.

Os domínios eram branding, e relevância em SEO e no Google page rank. Quanto a mim, foi um muito bom negócio para todos os envolvidos. SAPO e utilizadores.
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De Vitor Madeira a 15.06.2016 às 09:06

Fantástico! Também eu andei para criar uma coisita pelas página do Sapo, mas porque já tinha passado pela Geocities (vê lá se e recordas dessa...?) resolvi depois passar a estudar os scripts "dinâmicos".

Estou de acordo com o Daniel. Tudo poderia ter sido tão diferente... Mas por outro lado, concluímos isto porque vemos o que os americanos fizeram. E eles são tantos... Têm tantas mais cabecinhas a pensar ao mesmo tempo...

E suponho que o SAPO na altura ainda 'sofresse' daquela questão que é o facto de pertencer (na altura) a uma empresa estatal - só mais tarde é que a PT foi privatizada, certo? O peso 'burocrático' estava lá. A dimensão corporativa com heranças de função pública de um passado recente, também não poderiam ajudar mesmo nada.

Trabalho para uma entidade pública e sei o que é ter uma ideia tão básica mas ao mesmo tempo tão fácil de implementar, embora colida com o "espírito corporativo" que o funcionalismo público 'respira'...

Não quero de forma alguma derrotar as entidades públicas, mas em certas coisas, a iniciativa privada consegue mover-se mesmo mais rápido. Embora também existam excelentes exemplos no sentido contrário.

Não irei bater muito nesse ceguinho, mas sobre a partilha da remuneração da publicidade (tipo AdSense), imagino que, se a legislação portuguesa funciona como entrave (olha que 'surpresa'...) então o segredo poderia ser a utilização de uma filial do Sapo algures fora da UE.
(suponho que o SAPO, tendo presença em vários países africanos, poderia criar uma empresa em Cabo Verde, por exemplo, e pagar as remunerações da publicidade aos utilizadores portugueses a partir de lá, por exemplo?)

Vá, são ideias soltas...

Fica a memória e a descrição desses momentos tão especiais para a história da internet em Portugal. Esse texto tem que ser preservado!

(É o que me assusta nesta época 'digital'. Com um simples desligar de uma ficha de alimentação elétrica de um qualquer servidor, e a humanidade perde ativos preciosos que documentam a sua própria existência e que as gerações futuras definitivamente não terão acesso. Quase dá vontade de dizer: viva o papel... :p )

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