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Jonasnuts

A política como ela é - Manual para principantes

Embora não pareça, este é um post sobre motos. Ou talvez não.

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Tenho carta de condução de ligeiros de passageiros há mais de 30 anos. Conduzo carro todos os dias há mais de 30 anos.

Fruto de cenas diversas, há 6 meses comprei uma scooter 125cc em segunda mão. A da foto. 

Nunca tinha tido um moto. Sabia andar de bicicleta. Enfim, mais ou menos.

 

Comprei aulas numa escola de condução, para lá chegar e perceber que a moto em que ia praticar não era uma scooter (tinha mudanças) e perceber também que os senhores queriam pouco ensinar-me a andar de moto e queriam muito era que eu tirasse carta de moto. Não aprendi porra nenhuma na primeira aula. Não fui às restantes aulas que já tinha pago.

 

Fiz uma pesquisa sobre o equipamento de que necessitaria. Fiz perguntas a amigos reais e virtuais. Vi vídeos. O básico foi um australiano que me ensinou, o Ken Whitehouse. Aqui.  

 

Depois foi ganhar experiência. Andar no bairro e em parques de estacionamento, devagarinho, ao fim-de-semana. E ir ganhando experiência e ir cada vez um pouco mais longe. Fazer perguntas (auto-link). E depois comecei a vir para o trabalho e agora faço 1000km por mês e cada vez gosto mais.

 

Foi portanto com muita preocupação que vi uma notícia, no Expresso, com um título altamente preocupante "Conduzir motos com carta de ligeiros abre caminho ao aumento de mortes". Fui ver.

 

O  "jornalista" Paulo Paixão limitou-se a transcrever aquilo que lhe foi dito pelos "especialistas e intervenientes no sector" sem sequer ter tido o cuidado de olhar para os números para perceber que NADA naqueles números permite concluir tudo o que ele conclui e tudo o que deixa os "especialistas e intervenientes no sector" concluir.

E os "especialistas e intervenientes no sector" são pessoas com interesses muito específicos nesta área. 

 

O que me leva ao título do post. É um padrão. Se eu quiser que uma determinada lei seja aprovada preciso de convencer o decisor (neste caso o governo e a assembleia da república) e preciso de criar boa vontade na opinião pública, e isso consigo através de manipulação da comunicação social. Deparei com esta sequência quando me envolvi mais a sério no tema da lei da cópia privada, aqui há uns anos.

 

Convencer o decisor é fácil. Os almocinhos, os joguinhos de golfe, a troca de favores, a ignorância, a manipulação de dados e em alguns casos, presumo, a corrupção pura e dura. Todos têm o seu papel. Sendo que a ignorância e a troca de favores são, na minha opinião, os que mais contribuem. Neste caso, o decisor ou o iniciador é o ministro da administração interna que numa entrevista à Antena 1 (a parte que interessa começa ao minuto 32), começou a manobra. Questionado pela jornalista, começou por falar do aumento do número de acidentes e do aumento do número de vítimas mortais sobretudo resultado de atropelamentos. E depois deste contexto, identifica 3 medidas para mitigar estes números:

1 - Reduzir a velocidade máxima permitida de 50km/h para 30km/h dentro das localidades.

2 - As motos passarem a ter inspecções.

3 - Ser obrigatório ter carta de condução de motos para conduzir motos de 125cc.

 

E está montado o circo. Parece haver aqui uma causa/efeito. Este é um ponto importante, porque tudo o resto vai decorrer desta associação. Há mais acidentes porque as motos não são inspeccionadas e porque os condutores das 125cc não têm formação específica.

 

Ora, os dados disponíveis, da Autoridade Nacional da Segurança Rodoviária, não permitem estabelecer esta relação. Pode ser que o senhor ministro tenha outros dados. Gostávamos de saber quais são e onde podem ser consultados, então.

 

Isto é uma técnica de manipulação muito conhecida, muito antiga, mas cujo exemplo mais mediático e recente é toda a máquina de comunicação do Trump. Metem duas coisinhas uma a seguir à outra, e as pessoas preenchem o vazio, fazendo uma associação que não está explícita (porque não existe ou não se consegue provar). A associação passa a ser verdade. Estão a ver as fake news? É a mesma coisa. 

 

Portanto, ao que parece, o decisor, o originador público da coisa, o ministro, já está no barco e muito disponível para fazer a associação que não existe (ou cuja existência não se prova a partir dos dados disponíveis) seja por conivência, seja por ignorância, seja por falta de sentido crítico, seja por excesso de confiança em quem lhe preparar o discurso e o pensamento.

 

Foi dado o arranque. Agora, interessa aos promotores destas ideias, que são os reais interessados, que a opinião pública seja levada a pensar o que eles querem. No fundo, interessa-lhes criar boa vontade e apoios na opinião pública, porque se não a tiverem, os decisores ficarão mais renitentes. Ninguém quer aprovar medidas que lhes possam custar votos, ou créditos. 

 

E é aqui que entram os órgãos de comunicação social. Meia dúzia de jornalistas, a quem se envia um press release ou com quem se têm umas conversas e que se manipulam, duma forma ou de outra, para que as notícias saiam. Interessa que saiam duma determinada forma, numa determinada perspectiva. 

 

O slogan do Expresso era, até há pouco tempo, um extraordinário "Faz opinião". E faz. E não faria mal nenhum, se houvesse isenção, profissionalismo, competência, vontade de fazer perguntas....... enfim, jornalismo. Sei que há, mas neste caso não houve.

 

O Expresso não é caso único, mas eu distingo o Expresso do Jornal de Notícias, ou do Correio da Manhã, ou do Notícias ao Minuto. Sou, por isso, mais exigente com o Expresso do que sou com os outros.

 

No artigo do Expresso, que refere os números da Autoridade Nacional da Segurança Rodoviária é dada voz aos "especialistas e intervenientes no sector", a saber, Carlos Barbosa, presidente do Automóvel Clube de Portugal. Sendo um interveniente no sector, não se pode dizer que seja isento, porque tem interesses, nomeadamente em ter mais negócio por via das inspecções, e por ter mais negócio por via das cartas de moto.

O Presidente do Automóvel Clube de Portugal que, já vimos, tem interesse específicos na matéria, faz afirmações extraordinárias, como por exemplo "O aumento brutal de sinistros com motos deve-se em boa parte à falta de habilitação para conduzir. Devia ser obrigatório fazer um exame para se poder conduzir uma 125cc, tal como existia antigamente para as motos de 50cc". Não há, nos dados referidos no artigo, qualquer diferenciação entre cilindradas de motos. Não há forma de saber se foram motos com 125cc que provocaram os acidentes. Não há um aumento brutal. Há um aumento, durante 2017, do número de sinistros com motociclos. É isto que se sabe. 

 

Que o presidente do ACP diga isto, não estranho, já estranho porém que, ao jornalista, não lhe ocorra raciocinar sobre o tema e fazer perguntas.

 

No mesmo artigo, "Para o presidente do ACP, outra causa do actual aumento da mortalidade com motociclos “prende-se com o disparate que foi a permissão de circulação nas faixas Bus;é altamente perigoso colocar motos nesses corredores e o resultado está à vista”." Novamente, isto é imbecil. Que o presidente do ACP profira imbecilidades, é problema dele, de quem o elegeu e dos associados do clube, que ao jornalista não lhe ocorra informar-se e questionar a coisa, publicando sem sequer saber de que é que está a falar, já é um problema meu, porque, lá está, contamina a opinião pública com uma mentira que, validada por órgão de comunicação social, passa a ser verdade.

 

A permissão de circulação nas faixas de BUS não existe em todo o território. Existe no Porto desde 2016, em Lisboa desde Setembro de 2017, e em mais cidades espalhadas pelo país. Não há dados que permitam verificar se passou a haver mais acidentes depois de se dar início à circulação de motociclos em faixas de BUS. Aliás, em Lisboa a permissão surge na sequência de uma experiência piloto, que decorreu durante 9 meses e que abrangia apenas 3 vias da cidade. Quero presumir que, se os resultados desse piloto tivessem demonstrado um acréscimo de acidentes, a Câmara Municipal de Lisboa teria optado por suspender a coisa, em vez de a alargar a quase todas as faixas de BUS.

Mais uma vez, o "jornalista" não questiona, não pergunta, não quer saber, não informa.

A lei que permite a condução de motos até 125cc de cilindrada por pessoas com mais de 25 anos e com carta de ligeiros de passageiros foi aprovada, em Portugal, em 2009. Não houve, neste período, um aumento do número de sinistros com motos, pelo contrário, exceptuando 2017, o número de sinistros tem vindo a diminuir. Mais, uma vez que a venda do motos aumentou substancialmente, a queda no número de sinistros é ainda mais expressiva do que à primeira vista poderia parecer.

 

Outro "especialista e interveniente no sector" que o "jornalista" decide ouvir é um ex-presidente da ANIECA, apresentada no Expresso como sendo a Associação Nacional de Escola de Condução, mas que na verdade é a Associação Nacional dos Industriais do Ensino da Condução Automóvel. Mais uma vez, uma pessoa/entidade com interesses muito específicos em fazer negócio. Não é uma opinião isenta. Faz o mesmo que o ministro e o mesmo que o presidente do ACP, opina, relaciona implicitamente dois dados que não podem ser relacionados através dos factos, e subentende-se o resto.

José Manuel Trigoso, presidente do conselho de direcção da Prevenção Rodoviária Portuguesa é muitíssimo mais cauteloso e diz o óbvio; a lei das 125cc tem quase 10 anos, todos os anos a sinistralidade tem vindo a diminuir, ter aumentado agora não pode ser relacionado de forma precipitada, à falta de carta de condução. 

 

Por último, Manuel Marinheiro, presidente da Federação de Motociclismo de Portugal que, obviamente, tem uma leitura diferente e diz, preto no branco, uma coisa não tem a ver com a outra. Mesmo assim, o jornalista consegue espremer um "assume" e um "admite". A falta de honestidade é extraordinária.

 

Gostava que este Paulo Paixão explicasse como é que tendo opiniões contrárias por parte dos entrevistados, não vai atrás dos factos, não soma um mais um e não se informa um bocadinho antes de escrever. Não é papel do jornalista papaguear tudo o que lhe dizem. Convém que pensem e façam perguntas, senão, basta-me um microfone. Depois de opiniões contrárias, o título da notícia é "Conduzir motos com carta de ligeiros abre caminho ao aumento de mortes" e todo o texto manipula nesse sentido.

 

E é assim que se faz. Manipula-se o poder (de uma forma ou de outra), manipula-se a opinião pública, facilita-se a coisa, quem se lixa é o mexilhão, que não tem grande poder de manipulação e já está. 

 

Da mesma forma que a lei da cópia privada passou, para grande benefício de poucos privados, obliterando os direitos de milhões, esta intenção vai transformar-se em lei, porque, lá está......... o poder é desinteressado (ou excessivamente confiante, ou corrupto, ou ignorante, é escolher a que der mais jeito), a comunicação social extraordinariamente maleável e a opinião pública mais interessada em saber os resultados da bola.

 

Termino com um link para um artigo de opinião do Vitor Martins, um senhor que não conheço, mas que faz as perguntas que eu gostaria que o "jornalista" do expresso tivesse feito. Aponta caminhos. Dá explicações. Não tem muitas certezas. E é motard. Pode ser que o "jornalista" se inspire.

 

Somos todos culpados, mas uns com mais responsabilidade do que outros, senhor ministro e senhores do Expresso.

Bloqueia-mos*

A facilidade com que se aprovam leis para que sites sejam bloqueados sem acesso aos tribunais é extraordinária.
 
O poder judicial não se manifestar acerca desta tendência é, em si próprio, muito esclarecedor acerca da capacidade de acção deste poder judicial, muito envelhecido, muito alheado da realidade, muito fechado na sua bolha. A imagem que habitualmente associamos à justiça, duma mulher vendada, todos os dias faz mais sentido, embora pelos motivos errados. A justiça quer-se cega, mas não se quer burra.
 
Junte-se a isso a quase nula vontade (ou competência, ou ambos) do quarto poder em funcionar como fiscalizador.
 
Estamos então à mercê do executivo e do legislador, portanto, estamos à mercê do junta-se a fome à vontade de comer.
 
Estamos lixados. Com F de cama.

 
 
 
 
* Eu sei como é que se escreve bloqueamos e bloqueámos. O hífen está errado, mas é de propósito.

São Nicolau

Não aprofundei o suficiente, porque nem sequer tenho andado por aqui, mas de repente, no Twitter, só oiço falar do Nicolau Santos. Uns são contra, outros são a favor. Ora, eu não conheço muito bem o Nicolau Santos, a não ser pelo facto deste ser figura pública, com quem simpatizo (talvez por causa do laço que lhe dá uma certa panache), mas costumo vê-lo associado a comentários de economia, e não a vigaristas.

 

Fui ver. Ontem, ou coisa que o valha.

 

Vi um pedido de desculpas. Aprofundei ligeiramente. Vão-me desculpar, mas a verdade é que o vígaro do Artur só me entrou pelos olhos adentro ontem. Nem sequer sei os contornos da coisa (e pelo que li, nem eu, nem ninguém).

 

Então, parece que andou por aí um vigarista a enganar meio mundo e mais uns quantos. Parece que agora é fácil identificar a marosca, mas pelos vistos, enquanto ninguém deu pela coisa, não foi assim tão fácil, e foram muitos os que caíram na esparrela.

 

Qual é a diferença entre estes muitos e o Nicolau Santos? A meu ver, a única diferença, é que o Nicolau percebeu o erro, assumiu e pediu desculpas. Sem tretas, sem subterfúgios, sem salamaleques, sem paliativos.

 

Li o comunicado do Nicolau Santos, ontem. Disse-o no Twitter, e mantenho: "e aqui está, como depois de um erro, se mantém a credibilidade. Muito bem."

 

Quando peço credibilidade a um jornal (e caramba, se tenho aqui dito que a credibilidade é algo em que a comunicação social devia investir), não defendo que não se erre. Só quem não trabalha, não erra.

 

Mas acho extraordinariamente saudável que alguém, sobretudo com os anos de carreira que o senhor tem, assuma, admita, peça desculpas e prometa corrigir. Mais pessoas, com mais anos de carreira, fizeram maior cagada, sem nunca o admitir ou pedir desculpas.

 

Há muitos casos de erros clamorosos na comunicação social. E há muitos casos de órgãos de comunicação social que são propositadamente enganados. Mas são lamentavelmente poucos os casos em que assumem o erro e pedem desculpa.

 

A TVI (sim, a própria TVI) fê-lo, no caso Cacharel, e fê-lo em prime-time, por uma das estrelas jornalísticas da estação (é ver o vídeo, a partir do minuto 12). Hey, no melhor pano cai a nódoa, e quando digo melhor pano, refiro-me à MSNBC, à ABC News, ao New York Times, entre outros. E não foi há tanto tempo como isso.

 

Quando um jornalista assume o erro e pede desculpa, na minha perspectiva, isso só o credibiliza. É sinal de que não se vai esquecer.

 

Há mesmo quem saiba de cor as datas das borradas, e lhes assinale as efemérides.

 

Não é para todos, lá está.

 

Só os realmente bons são capazes de fazer isto.

 

Já disparates, isso sim, é para todos.

 

Hoje, para além de gostar do Nicolau Santos por causa do laço, gosto também porque me merece confiança. Olha, é humano, erra como os outros todos, mas ao contrário de muitos (tantos), não se esconde, nem usa analgésicos.

 

Mr. Nicolau, well done, sir.

Jornalismo

O Correio da Manhã tem neste momento disponível na sua página de entrada um título e um vídeo. O título "Engenheiro mata com neta ao colo".

 

Um vídeo e uma foto acompanham a "notícia".

 

Nada contra, até aqui, no vídeo até avisam que as imagens podem ofender susceptibilidades mais susceptíveis (eu sei, é de propósito).

 

A questão é que a notícia é só isso.

 

Ficam por responder aquelas que eu acho que são as perguntas a que qualquer notícia deve responder. Não sei, presumo que as ensinem nos cursos de jornalismo. O onde, o quando, o como, o quem, o porquê. Sabem, aquelas coisas que constituem a notícia propriamente dita.

 

Se eu quiser ver um gajo a matar outro, vou ao cinema, e fico mais bem servida, as pistolas fazem um barulho de jeito, o morto cai dramaticamente e está vestido de branco, para se ver o sangue, há diálogos bem construídos, enfim, o que se quiser.

 

Aqui, não percebo, sinceramente, o que é que aquele vídeo lá está a fazer.

 

 

UPDATE: Explicam-me no Twitter, o user do Correio da Manhã @cmjornal, que se trata duma secção que diz "Exclusivos em papel" (e diz). O jornal, em papel, era uma coisa que o meu avô comprava. Esta geração não compra em papel, ou, vá, está a deixar de comprar. Eu, que nem sequer sou da geração web (sou mais velha), resolvi o tema doutra forma. Mas não comprei papel.

Os cépticos

Ontem à tarde, numa esplanada de Cascais. Ele lê o Público.

A notícia "IVA a 23% eleva a conta anual do supermercado em 38 euros" despoleta o seguinte diálogo:

 

Ele: Iva a 23% eleva a conta anual do supermercado em 38 euros?

Eu: LOL

Ele: O Público é do PS?

Eu: Não, é do Belmiro.

Ele: aaaaahhhh!

 

Somos uns cépticos do jornalismo, essa é que é essa.

O debate iô-iô

Chamo-lhe o debate iô-iô porque desde que conheci o primeiro blog português, há uns anos valentes, que a discussão é a mesma. A sério. Anda tudo a debater a mesma coisa há anos, e anos, e anos.

 

Passo a explicar: Jornalismo versus Blogosfera

 

A sério, já cansa, volta não volta, regressa o tema, por qualquer razão, agora parece que foi o facto de Pedro Passos Coelho ter tido uma conversa só com autores dos Blogs acreditados no último congresso do PSD. Houve jornalistas que não gostaram, congressistas que não compreenderam, e órgãos de comunicação social tradicional que estrebucharam.

 

Vamos lá ver se a gente se entende (e de caminho passem por aqui, por aqui e por aqui para se esclarecerem melhor).

 

Um Blog é um Órgão de Comunicação Social. Este blog é um órgão de comunicação social, é a minha plataforma de comunicação com quem me rodeia (e está para ler os meus disparates, mas se lêem os disparates de um jornal porque é que não hão-de ler os meus?).

 

A diferença entre os órgãos de comunicação social (Blogs, twitter, Facebboks, Homepages, MySpaces, whatever) e os outros, é que os outros são tradicionais, é assim que eu faço (e sempre fiz, na realidade) a distinção. Uma empresa para abrir um jornal tem de cumprir requisitos legais (e, presumo burocracias infindáveis), tem de contratar uma equipa, tem de ter uma linha editorial, tem (convém que tenha) um plano de negócio, tem de dar garantias, tem de ter a assiduidade a que se propõe. Eu não :) Eu publico o que quero, como quero, quando quero. Desde que respeite a lei, estou por minha conta.

 

Não sou jornalista, nem tenho de ser, é o meu blog, e eu não preciso de ser jornalista para escrever o que me dá na real gana. E tão depressa escrevo sobre a Bimby, como sobre os meus sobrinhos, como mando cartas ao Tozé Brito, ou ao procurador geral da república, ou mando um coice no Moita Flores, o dou vivas ao meu Benfica Glorioso Clube Mailindo do Universo e mais além. Sou facciosa, assumida, entenda-se.

 

Os órgãos de comunicação social tradicionais (e alguns jornalistas) são de um tempo lento. O tempo hoje anda mais depressa, e eles ainda não assimilaram sequer o online, quanto mais as plataformas públicas de comunicação social. E como não assimilaram nem perceberam esta realidade, têm medo. Por um lado deslumbram-se (epá, tanta informação, de borla, podemos reduzir o tamanho da redacção), por outro lado acagaçam-se porque não encontram um modelo de negócio, e querem usar os métodos tradicionais para rentabilizar um formato que é tudo menos tradicional.

 

Enfim, andam aos papeis, vidrados no papel (o papel vai morrer senhores, acordem para a vida), com a cabeça enfiada num buraco no chão (ou numa redoma de vidro), às vezes dando ouvidos a profetas e "pioneiros" especialistas de virtualmente nada que percebem ainda menos que eles (mas que falam com propriedade e convicção), e entretanto vão perdendo pé.

 

Na realidade, a única coisa que fazem é estrebuchar quando acham que alguém lhes invade o território. Que é precisamente o que não deviam fazer.

 

Ganda volta que isto deu. Resumindo e concluindo:

 

Os Blogs (e demais plataformas públicas de publicação de conteúdos) não são órgãos de comunicação social tradicionais, mas são órgãos de comunicação social. Os tradicionais, ou começam (e já deviam ter começado) a olhar para estes conteúdos, e pensar de que forma é que podem aproveitá-los para potenciarem o seu produto que é, ou deveria ser, o jornalismo, ou morrem ainda mais cedo do que o que julgam.

 

E agora, podemos não voltar a este tema durante uns anos?

 

Muito agradecida.

Caros estagiários de jornalismo

É para vós em especial, esta missiva.

 

Eu sei que sobre os vossos ombros de estagiários recai, muitas vezes, a responsabilidade de jornalistas seniores. Bem sei que, com frequência, não têm o apoio e supervisão que caracterizava há uns anos a posição de estagiário. Estou ciente de que são lançados aos lobos, verdinhos, verdinhos, verdinhos. E vejo que, muitas vezes, ninguém vos corrige ou orienta.

 

 

Por outro lado, vocês, nova geração, não têm consciência do pré-internet. Quando vocês nasceram a Internet já existia. A Internet funciona para vós, como funciona para mim a electricidade. Faz parte, é um dado adquirido. Mas, como a Internet é muito nova, os vossos professores ou não falaram dela, ou falaram mal.

 

 

Portanto...... vocês recebem pouca ou nenhuma formação nesta área, e depois entram no mercado de trabalho como estagiários. É um mercado cada vez mais difícil, há muita oferta de jornalistas e cada vez menos procura e locais de trabalho. E era, antigamente, uma profissão de idealismos e hoje é-o cada vez menos.

 

As coisas hoje querem-se rápidas. E é um compromisso difícil, o vosso. Sou o primeiro a anunciar isto ou confirmo com uma fonte credível? Difícil, difícil, difícil, principalmente se querem mostrar trabalho ou aproveitar a oportunidade para se mostrarem ao chefe (lembra-me o burro do shrek, mas pronto, faz parte).

 

E isto tudo só para uma informação que vos será de grande utilidade:

 

O jornal The Onion é um jornal online, sim, mas é de notícias falsas. E o Daily Show do Jon Stewart é um jornal, sim, mas de notícias falsas (aliás, ambos fazem questão de dizer isso mesmo).

 

Pronto. Esta foi a minha contribuição.

 

Boa tarde, e boa sorte.

 


P.S.: Quero agradecer ao Briefing, o novo agregador do marketing (palavras deles) a inspiração para este post.

 

Os jornalistas e a gripe

A minha irmã choca-se com a minha visão do jornalismo em Portugal. Diz que é um posicionamento arrogante e presunçoso. Diz que não posso prescindir desse pilar da informação independente, dessa fonte inesgotável de factos e de verdades confirmadas.  Sim, ela não só é mais nova como é menos cínica :)

 

Isto tudo porque eu lhe disse que não sigo a gripe (mexicana, suína, dos porcos, H1N1, há para todos os gostos) através da comunicação social. Faço-o através do site da Organização Mundial de Saúde.

 

Mas é a mesma mana que me envia links dos bons. Neste caso em específico, o de um artigo de um jornalista, no Canadian Journalism Project. Se eu tivesse a certeza de que todos os jornalistas a acompanhar o fenómeno H1N1 seguiam aqueles conselhos, eu era gaja para acompanhar a coisa através da comunicação social tradicional.

 

Até ver, continuo a preferir acompanhar por aqui.

Jornalistas modernos

Este post é capaz de chatear algumas pessoas, em especial alguns dos amigos que tenho e que são, em simultâneo, jornalistas.

 

Considerem o disclaimer do costume, que não se julga o todo pela parte, e que um caso são casos, e coiso e tal.

 

A razão pela qual muitas pessoas querem ser jornalistas passa pela imagem que temos do jornalista. Um gajo, que com o poder da escrita (ou da palavra) nos faz chegar os factos. O quem, o como, o onde, o quando e o porquê. Um gajo que escreve bem, que sabe falar. E que é independente e protege, acima de tudo, a Verdade. Por causa deste retrato, que em tempos pode ter sido realista, temos a tendência para acreditar no que vem escrito nos jornais, ou é dito na rádio. Achamos que a parte da veracidade dos factos, a confirmação dos eventos, e a escolha das fontes são trabalho do jornalista. E são. Achamos bem. Isto é, acharíamos bem, se vivêssemos há uns anos.

 

O problema é que o grau de exigência tem vindo a diminuir, e muitas pessoas que se dizem (ou são consideradas) jornalistas já não preenchem os (meus) requisitos mínimos, alguns são mesmo umas verdadeiras bestas. Não sabem escrever, não sabem falar, não sabem usar da melhor forma as ferramentas que têm à sua disposição (nomeadamente a internet), não sabem seleccionar fontes. Gostam muito do copy paste. A juntar a isto, temos o actual ritmo a que vivemos que é muito, mas muito mais rápido que outros ritmos do passado. Acrescentem-se os donos os órgãos de comunicação social e a sua (às vezes não tão escondida como isso) agenda, mais os ódios de estimação, mais as intrigas palacianas, mais os editores, mais as orientações editoriais, mais as pressões e mais o diabo a sete e estamos lixados. Com f de cama.

 

O nome de um jornal já não me chega para garantir a veracidade e isenção de uma notícia. Nem sequer o nome do jornal conjugado com o nome do jornalista.

 

É engraçado que numa época em que a quantidade de informação é cada vez maior, quando os jornalistas seriam mais necessários enquanto seleccionadores da informação relevante estão, pelo contrário, a perder importância e relevância. Por culpa própria também, mas não maioritariamente.

 

Acho que hoje em dia, para se ser jornalista são precisas 3 coisas, um curso qualquer, uma vontade enorme de seguir esta carreira, e uma lobotomia (para perderem toda e qualquer veleidade de quererem pensar pelas suas próprias cabeças).

 

Como é que me mantenho a par da actualidade, tendo em conta a opinião que tenho dos jornalistas em geral? Faço eu a minha selecção. 99% da actualidade acompanho nos Blogs (muitos desses Blogs são de jornalistas, sem filtros externos). São raros os casos em que recorro a órgãos de comunicação social tradicionais. Só para as breaking news, na maioria dos casos.

 

Construí uma rede pessoal de Blogs, através dos quais sigo as notícias. Não se constrói de um dia para o outro, esta rede. E está em constante transformação, saem uns entram outros. Há mais de 2 anos uso este método. E estou satisfeita.

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