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Programa para o próximo fim-de-semana

por jonasnuts, em 17.05.16

(1) Cabide, a revista ao vivo.jpg

 O programa completo, para os dois dias:

 

Índice | Cabide nº4
Teatro da Trindade

Sábado, 21 de Maio
15h30-18h
[Intervalo 17h-17h15]

Editorial
João Pombeiro e Luís Alegre

Kazoo Karaoke
João Mestre e Vasco Martins

Primeiro milhão com a literatura
Afonso Cruz

Os números enganam
David Marçal

O interesse do interesse
Rui Tavares

Repetição e cópia
Carla Hilário Quevedo

Haverá vida para além da cópia?
Ilustração de André Carrilho

A evolução das indústrias
Maria João Nogueira


21h30
Filme escolhido por Pedro Mexia

Domingo, 22 de Maio
15h30-18h00
[Intervalo 17h00-17h15]

Kazoo Karaoke
João Mestre e Vasco Martins

Real Fake
Luís Alegre

As minhas cenas
Kalaf Ângelo

O poder das cópias
José Bragança de Miranda

Haverá vida para além da cópia?
Ilustração de André Carrilho

Entrevista a Francisco Teixeira da Mota
João Pombeiro

Autoria e outros dados (tags, etc)

Claro que o título do post generaliza, e toda a gente sabe que as generalizações são perigosas (e injustas). Mas não deixa de ser (ainda) verdade, para muitos casos.

 

A história conta-se rapidamente e cheguei lá por via do TechDirt. Havia (note-se o tempo verbal) um site, com cerca de 15.000 utilizadores registados, chamado LendInk. Este site era uma rede social baseada em gosto pelos livros. Punha em contacto utilizadores de e-books como o Kindle (Amazon) ou o Nook (Barnes and Noble) , e essas pessoas podiam, se quisessem, emprestar e-books umas às outras.

 

Note-se que este empréstimo é uma funcionalidade que existe quer na Amazon quer na Barnes and Nobles, e que funciona mais ou menos como o empréstimo de um livro e papel, com a diferença de que apenas pode ser emprestado uma vez à mesma pessoa, e por um período máximo de 14 dias. É um acto legal, gerido no backoffice da Amazon (para quem tem Kindle) e da Barnes end Noble (para quem tenha Nook).

 

O LendInk não alojava livros, não disponibilizava livros para download, não tinha, sequer, modelo de negócio associado. Era mantido por um veterano de guerra americano que, nos tempos livres, tratava da coisa.

 

De repente, uma série de autores, via twitter, começa a comunicar entre si (e publicamente) acerca deste site "pirata". Espalha-se a notícia. Ameaçam com DMCA e como isso não se mostra imediatamente eficaz, escrevem hate mail à empresa que aloja os servidores e fornece o serviço à LendInk.

 

Meu dito meu feito, em três tempos o serviço é suspenso.

 

Os autores em causa (segundo creio, está a ser elencada uma lista que será pública a fim de que possam ser evitados por quem compra livros - eu quero a lista), nem sequer se dignaram em tentar perceber o que era aquilo. Foi logo uma escandaleira. À mínima possibilidade de alguém usufruir do seu trabalho, legitimamente comprado, gritam pirataria. Não percebem várias coisas. A primeira é a velha história do menino com o lobo, tanto gritam injustificadamente, que mais coisa menos coisa, ninguém acredita neles. A segunda é que emprestar livros não é ilegal. Se acham que emprestar livros é ilegal, atirem-se às bibliotecas (que devem dar pouco trabalho, pelo menos em Portugal, que a coisa já está por fios). A terceira é, quanto a mim, a mais grave. Não percebem o valor do seu trabalho. Não compreendem a relação que muitas pessoas têm com os livros. Não sabem reconhecer uma boa ideia base, sobre a qual podia ter sido, perfeita e facilmente, montado um modelo de negócio de VENDA dos seus livros.

 

É preciso ser-se muito burro para não identificar uma óptima ideia, que poderá transformar-se em mais um canal de VENDAS.

 

Se me emprestam um livro de que eu gosto, a seguir, eu compro. Compro esse e compro mais, do mesmo autor. Eu sei que os autores não são obrigados a perceber isto, mas caraças, não deveria haver na indústria quem lhes explicasse?

Acreditam única e exclusivamente no trabalho de divulgação de quem faz negócio à sua custa (intermediando e em muitos casos, acrescentado valor, é um facto). Acreditam em modelos antigos de críticas em jornais de referência, em cocktails de lançamento, em passatempos, em tops (essa figura que nada tem a ver com a popularidade real dos livros, e que depende apenas daquilo que as livrarias precisam de escoar), em imprimir cartazes, em sessões de autógrafos. Não percebem que muita gente (sobretudo quem tem leitores de e-books) tem uma forma de chegar aos livros completamente diferente. A web 2.0 já foi há uns anos (quase 10, para ser mais precisa), já é hoje um conceito em desuso, e eles ainda nem sequer lá chegaram. Eu borrifei-me nos críticos, e nos tops e no marketing tradicional. Eu chego aos livros por recomendação de alguém que eu conheço ou em cuja reputação confio. Falei (auto-link) disso há pouco tempo.

 

Caramba. É preciso ser-se muito atrasado.

 

Tiro no pé, atrás de tiro no pé, atrás de tiro no pé. E depois queixam-se que estão a perder negócio. Fónix...... não admira. Não se consegue manter um negócio numa indústria que se desconhece.

 

Vão ler livros pá. Este pode ser um bom ponto de partida.

 

O Facebook da LendInk tem mais informação, para quem estiver interessado.

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A evolução das indústrias #pl118

por jonasnuts, em 10.01.12

O meu trisavô, Francisco Luís, era ferreiro do Marquês de Santa Iria, a mulher dele, minha trisavó, Leonor do Espírito Santo, era professora e parteira.

 

Presumo que no tempo do meu trisavó e da minha trisavó houvesse muita necessidade de ferreiros e de parteiras (embora menos de professoras), e que eles tenham tido estas profissões porque havia procura deste tipo de competências. Com o passar dos anos, o número de cavalos, mulas, e demais animais que precisam de ferreiro foram diminuindo, sobretudo nas áreas mais cosmopolitas, e, com a chegada do automóvel e dos veículos motorizados, a profissão de ferreiro não se extinguiu, mas especializou-se, modernizou-se, evoluiu, e decresceu para números nada comparáveis aos do auge dos cavalos e dos coches e das carroças.

 

Não vou descrever aqui a minha história familiar, embora conseguisse, sem grande esforço e sem ter de subir muito na árvore genealógica, encontrar fotógrafos. A fotografia antigamente, era coisa importante. Só acessível às classes endinheiradas, e mesmo assim, em dias de festa. Operar uma máquina fotográfica era coisa especializadíssima, e o fotógrafo deslocava-se a casa das pessoas importantes, e estas, empinocavam-se todas, para o retrato. Mais tarde, começaram a aparecer as primeiras máquinas fotográficas para uso doméstico. Custavam obscenidades, continuava a ser apenas para famílias ricas, mas a coisa compunha-se. Ainda assim, devido ao custo do equipamento, o mercado dos fotógrafos profissionais manteve-se. Deixaram a itinerância das casas ricas, abriram lojas e foram à descoberta do país, por itinerários mais rurais. Mais uns anos, mais evolução tecnológica, mudanças sociais que tornaram os pobres menos pobres (mas os ricos mais ricos, não interessa), e criou-se uma classe média, burguesa, que compra máquinas fotográficas. Não só estas estão mais baratas, como já há mais gente a ter mais dinheiro para gastar. Meados do século XX, e as máquinas fotográficas fazem parte do dia-a-dia de qualquer família. Senão todos os dias, pelo menos nas férias, e na celebração de ocasiões especiais. Os fotógrafos tinham começado a perder mercado. Evoluíram. Criaram-se áreas de especialização dentro da fotografia. Acho que, nessa altura, não passou pela cabeça de ninguém, taxar as máquinas fotográficas, ou as revelações, ou os rolos, para compensar a diminuição de mercado de trabalho e de negócio dos fotógrafos profissionais. Mas, andando com a história. Passemos aos dias de hoje.

 

A fotografia faz hoje parte da nossa vida por dá cá aquela palha. Longe da ocasião cerimoniosa de antigamente, tiramos hoje uma foto por tudo e por nada, com máquinas melhores, piores, assim assim e mais ou menos. Cá em casa, deve haver cerca de 10, para falar apenas nas digitais. Ah, pois, esqueci-me disso. O advento do digital. Obviamente, revolucionou a fotografia como a conhecíamos. Mesmo na era áurea da foto analógica (chamemos-lhe assim), aquela coisa de premir o botão tinha muito que se lhe dissesse. O enquadramento, a luz, se estava tudo bem, se eram as pessoas certas, o momento correcto. Assim como assim, o resultado não se via logo, e a coisa ficava carota. E, no fim do rolo, mandar para revelar, e esperar umas semanas, até que estivesse pronto. Sim, que essa coisa da revelação primeiro em 48 horas, depois em 24, e, mais tarde, numa hora, são modernices recentes.

 

Com o digital tudo muda. Não só as máquinas são MUITO mais baratas, como não há aqui revelações metidas ao barulho, o resultado é imediato, e tiram-se fotografias a torto e a direito. Muitas marcas evoluíram, muitos novos serviços foram criados, muitos novos fotógrafos revelados (sim, foi propositado), muitas paixões descobertas. Houve, na indústria da fotografia, uma revolução tecnológica que uns conseguiram acompanhar, outros não. A Kodak, curiosamente a empresa que começou o digital, está à beira da falência. Outras, floresceram, apanharam a boleia dos tempos, souberam ler os sinais, optaram pela estratégia certa, investiram na direcção correcta.

 

So far.... ainda não ouvimos falar de taxas em cima do digital, para proteger o modelo de negócio do "analógico".

 

A fotografia não desapareceu. Nem como indústria, nem como arte, nem como forma de expressão, nem como hobbie. Criaram-se nichos. O hype à volta da Polaroid é um bom exemplo, ou a Lomografia.

 

A produção "caseira" está viva, recomenda-se, e, ao contrário do que muitos disseram, faz aumentar a procura, a partilha, a troca. O Flickr, que nem sequer é o maior alojador mundial de fotos (esse é o Facebook, claro), celebrou no passado 4 de Agosto (grande e belo dia) a entrada nos seus servidores da fotografia 6.000.000.000.

 

Nem sequer vou referir a importância desta capacidade de registarmos e de imediato transmitirmos uma imagem, coisa que é fácil com qualquer telemóvel vulgar, nos dias que correm. É lembrarem-se qual foi a primeira foto que apareceu, quando um avião aterrou no Hudson. Ou quando aconteceram os atentados em Londres. Não foram os profissionais, esses chegaram mais tarde. Fomos nós.

 

E, no meio disto tudo, onde é que estão as taxas para proteger o modelo de negócio que o tempo se encarregou de dizimar? Não estão. Com a evolução tecnológica e das mentalidades, a Indústria Fotográfica esmoreceu? Pelo contrário. Uns sobreviveram, outros nasceram, outros cresceram, outros morreram. É assim. Faz parte. Estou certa que qualquer pessoa se lembrará, sem grande esforço, de indústrias, profissões ou actividades que, numa determinada época faziam sentido, e que, com o tempo, deixaram de fazer. Os sapateiros, a distribuição alimentar, a indústria do vestuário (ainda há modistas e alfaiates, ou estão todos a viver à conta das comissões que o pronto-a-vestir lhes paga?). Apareceram outras. Novas formas, novos modelos. A Humanidade evolui, desenvolveu-se. E isto é assim na maior parte dos casos. E é assim que deve acontecer.

 

Quais são as excepções?

 

As excepções são as indústrias que detêm forte poder de lobby, e que, não conseguindo manter a validade dos seus modelos de negócio através da relevância dos seus serviços e produtos, pressionam, gastam dinheiro (rios de dinheiro), para manter vivos os modelos que não subsistiriam exclusivamente através dos seus méritos. Legislam pois então. É (também) para isso que servem os lobbies (forçam, compram, pressionam, chantageiam, whatever, who cares) para obrigar os poderes instituídos a criar leis que lhes protejam o negócio e o estilo de vida. À custa do mexilhão que, claro está, somos nós todos, o povinho.

 

Pessoas dispensáveis, serviços inúteis, parados no tempo, que são travões de nós todos e do desenvolvimento.

 

E é para isso que serve esta lei 62/98, actualizada em 2004, e que está agora a ser debatida na Assembleia da República com o nome de PL118/II, no sentido de ser ainda mais agravada (e vai pesar nos nossos bolsos, não tenham dúvidas). Serve para que os tais poderes instituídos se mantenham, um pouco mais, a travar-nos os passos, e enriquecendo ainda mais pelo caminho.

 

Não se iludam com a história da carochinha de que coitadinhos dos autores e dos artistas. Os criadores e os artistas não são perdidos nem achados no meio desta história, apesar de ser em nome deles que tudo isto vai passar. Que têm de ser remunerados pelo seu trabalho e pelas suas criações. E têm, mas não é com isto que isso vai acontecer. Nem com isto nem com esta lei idiota, que apenas vai servir para que os mesmo de sempre, se encham à custa de todos, artistas e criadores incluídos. É verdade que ainda não vi nenhum a manifestar-se contra esta PL118, mas a verdade, é que também ainda não vi nenhum artista ou criador a defendê-la. Assim, a dar entrevistas e a dizer, seriamente, porque é que acha que isto faz sentido sem que, pelo caminho, atropele os direitos e as liberdades daqueles que são o seu público, os seus clientes. Não vi, nem ouvi. Porque será que anda tudo tão caladinho?

 

A lei vai passar, uma alteração aqui, uma alteração aqui, para corrigir erros técnicos grosseiros e para calar alguns mais afoitos que têm falado acerca do assunto, mas pouco mais. E daqui a uns tempos, vem a ACTA (que o PSD está a preparar, caladinho e na surra) e o português lá vai andando, e vendo a casa dos segredos e os outros que emagrecem, feliz da vida, assim como assim, dinheiro para manter as sanguessugas não vai faltando, parece.

 

Crise? Qual crise. Crise a sério e as pessoas andavam em cima da Assembleia da República, a chafurdar nas coisas que vão ser votadas. Descobriram-se erros grosseiros nesta proposta que, a serem aprovados (e estiveram muito perto de serem aprovados na generalidade), tornariam incomportável a compra dum simples telemóvel, daqui a 2 anos. Quantos mais erros grosseiros estão neste momento na Assembleia da República à espera de ser aprovados? Não sei. Deu-se por este. Há-de haver outros.

 

Crise? Qual crise? A comunicação social digladia-se em guerras de aventais e quejandos, sobre as quais não tem qualquer poder de influência. Ahhh, mas é uma cacha, e a outra do jornalismo de investigação que encontra não sei quem que chacinou não sei quantas, mas afinal já não chacinou ninguém, e o povinho lá vai, anestesiado, com as novelas, as de ficção e as outras.

 

Crise? Qual crise?

 

A única que vejo, é a dos valores. O resto, vem por arrasto.

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O post original pertence ao excelente Enrique Dans, em castelhano, aqui.

 

 

Eu traduzi (depois de pedir autorização, evidentemente).

 

 

 

"Mentira. Tudo mentira. Os downloads não provocam menos vendas, nem perda de postos de trabalho, nem menos riqueza, nem descidas do PIB, nem nenhuma das apocalípticas mensagens que a indústria dos conteúdos tem espalhado ao longo destes últimos anos. São simplesmente mentirosos interesseiros, que procuram influenciar políticos e cidadãos para conseguir, exclusivamente, o seu próprio benefício.

 

 

Um estudo levado a cabo na London School of Economics analisa a evolução das métricas da indústria em comparação com os downloads, e demonstra que tudo o que a indústria afirmava estava errado ou era, simplesmente, mentira. Que a indústria não está assim tão mal quanto nos querem fazer crer, que os downloads não provocaram qualquer efeito significativo (e que, de facto, representam o futuro da indústria), e que as descidas na facturação da indústria se devem, simplesmente, a outros factores, como a crise económica e a queda generalizada da economia de consumo. Para uma boa análise, recomendo este artigo da Ars Technica, Did file-sharing cause recording industry collapse? Economists say no.

 

As evidências são claras: que as vendas baixaram, é óbvio, mas baixaram exactamente da mesma forma em segmentos da população que careciam de rendimentos e de acesso à Internet, e devido fundamentalmente a uma quebra no rendimento disponível para gastos em entretenimento. Os downloads, como muitos de nós temos referido frequentemente, não prejudicam as vendas, apenas aumentam a  notoriedade e multiplicam a exposição,  convertendo em mais tangível o interesse que faz com que muitas pessoas vão a um concerto, a uma sala de cinema ou consumam conteúdos através dos suportes disponibilizados pela indústria, se é que esta propõe algum que seja minimamente razoável, o grande calcanhar de Aquiles que está por trás das suas quebras de receita.

 

 

Perseguir os downloads e os que os fazem é uma estratégia errada e sem saída. Proteger modelos de negócio obsoletos pretendendo evitar os avanços da tecnologia apenas contribuem para congelar a inovação da indústria. Verdades sustentadas por dados e análises, em oposição a lucubrações interesseiras duma indústria manipuladora, de lóbis dedicados a sustentar altos lucros por pouco trabalho, e monopólios do passado. Vale a pena ler o estudo, escrito em linguagem perfeitamente acessível: é tão claro, que até um político o consegue compreender :-)"

 

Como de costume, Enrique Dans diz EXACTAMENTE aquilo que eu penso (e mais bem escrito :)

 

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