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Horário de expediente

por jonasnuts, em 30.03.12

Nunca foi algo muito natural, para mim, esta coisa do horário de expediente. Acho que, de toda a minha família, só tive uma pessoa que cumpria escrupulosamente, o horário de expediente. Foi o meu avô César, que trabalhava na EDP. Há uns bons 40 anos que se reformou, acho que não me lembro do meu avô sem ser reformado. Mas com ele, era limpinho, entrava à hora certa, saía à hora certa. Em casa não falava do trabalho.

 

Já o resto da família, foi muito diferente. Bom, a minha avó Julieta trabalhava em casa, era doméstica, pelo que o horário de expediente natural, para ela, era o das 24/7.

 

De resto, a minha avó materna trabalhava na bilheteira dum cinema, horários esquisitos, sempre uma história para contar, sobre as pessoas que por lá passavam (presumo que trabalhar directamente com o público dê sempre grandes histórias). O meu avô materno era o homem dos mil ofícios, mas eu já só o conheci como operador de câmara, e mestre das luzes, fazia imensas reportagens, em Portugal e lá fora. Horário de expediente, népia. Histórias? Dava para uma colecção de livros. O meu pai trabalhava em seguros, era comercial, suponho, mas também tinha uns horários arrevesados. A minha mãe, publicitária, copy. Mesmo numa altura em que tinha de picar o ponto (o próprio e o alheio, segundo consta), vinha para casa pensar em conceitos, e em slogans, e em jingles, e em packshots e claro, histórias, muitas.

 

Eu nunca soube o que era o horário de expediente. Comecei por trabalhar em produção. Em produção, não há horários, temos de ser os primeiros a chegar e os últimos a sair. Passei para a produção de publicidade. Qual horários, qual Natal, qual horário de expediente. Se há uma merda que tem de estar pronta naquele dia, naquela hora, é porque tem de ser.

Chego às internetes. Mais exactamente ao Terràvista. Como é que deveria funcionar o horário de expediente dum serviço que funciona 24/7? Na minha perspectiva, o horário de expediente é total. Qualquer pessoa que trabalhe nesta indústria, tem de saber que tem de ter uma disponibilidade de 24/7. É esse o nosso pressuposto. É essa a nossa premissa.

E é claro que, fazendo algo de que gosto muitos, as coisas misturam-se. Atenção, não digo que se baralhem, mas misturam-se. Da mesma forma que, de férias, vejo o mail, e os feeds, e o twitter (contas oficiais e contas pessoais), e o Facebook (the same), é natural que durante o horário que o resto do mundo acha que é de expediente, eu faça exactamente a mesma coisa. Vejo o Twiter (contas pessoais e contas oficiais), vejo o Facebook (the same) vejo feeds, and so on, and so on, and so on.

 

Por isso, se alguém que não trabalha nesta área (ou que trabalha numa área que vive em horário de expediente) me pergunta, porque é que fazes posts no teu blog pessoal durante o horário de expediente, eu respondo uma de duas coisas:

1 - A plataforma de blogs que eu uso, permite-me editar a hora do post. Portanto, se eu quiser, a hora que aparece no post não é a hora a que foi escrito o post.

2 - Se eu não puder escrever no meu blog pessoal durante o meu horário de expediente, então não posso ter blog, porque o meu horário de expediente é de 24/7.

 

Eu sei que há pessoas a quem dava jeito (e descanso) que eu não pudesse escrever no meu blog pessoal. Lamentavelmente (para essas pessoas), a indústria onde trabalho, já evoluiu para o século XXI.

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O trânsito de Lisboa

por jonasnuts, em 26.10.07
O trânsito de Lisboa é, habitualmente caótico, especialmente em horas de ponta, mas não é obrigatório. Já apanhei bichas (eu cá não sou de eufemismos), bichas (e repito) a horas perfeitamente insuspeitas, e já apanhei abertas em horas de ponta. Mas é cada vez mais raro.

Presumo que todos estão de acordo acerca do factor stress que o trânsito de Lisboa provoca nos cidadãos que são obrigados, todos os dias, a fazer a sua vidinha de sai de casa, põe criança na escola, vai para o trabalho, vai buscar o puto à escola e vai para casa.

Não sei das outras pessoas, mas eu tenho horários. Mais importante, o meu puto tem horários. Os horários do meu puto são mais importantes que os meus. Quero que ele seja uma pessoa pontual, e respeitadora do tempo dos outros, e dos seus compromissos. É com muito orgulho que ele me mostra o boletim de avaliação periódica a dizer "aluno assíduo e muito pontual". Eu também fico orgulhosa, porque sei o esforço que me exige, levantar-me com as galinhas, para ele estar, a horas, na escola. Odeio levantar-me cedo. Sempre odiei. Mas esforço-me por passar a mensagem certa, que nesta coisa de filhos, não há como as acções. Funcionam muito melhor do que o paleio.

Os horários do meu filho são os mais importantes do mundo.

Como é que eu explico ao meu filho que, por causa de uns senhores que não conhecemos de lado nenhum, milhares de pessoas vão chegar atrasadas aos seus trabalhos, aos seus compromissos, às suas aulas?

E depois o mesmo, ao fim do dia. Quantos pais chegaram tarde para ir buscar os seus filhos à escola? Quantos pais chegaram a casa em cima da hora de jantar, com uma enorme dose de stress, já sem paciência para os banhos, as brincadeiras, o jantar?

Porque é que aqueles senhores, em plena hora de ponta, têm auto-estradas inteiras, fechadas para poderem passar?

O que é que aqueles senhores são mais do que nós?

Não vou cair na piada fácil do filho da Putin. Porque o Putin não tem culpa nenhuma. A responsabilidade passa por quem aceitou as condições que o pessoal da segurança do Putin impôs. Ou então arranjavam uma pensão modesta em Mafra, e espetavam com o gajo por lá. Sei lá, qualquer coisa ali perto, que não obrigasse a deslocações de vários Km, à hora de ponta da manhã e à hora de ponta do fim do dia.

Deve ser qualquer coisa relacionada com a mania das grandezas, de pobrezinho mora longe. Fechaste a praça vermelha para eu poder fazer jogging para a fotografia? Ok, eu fecho várias vias de comunicação, centrais, de acesso à capital do meu país, para tu poderes ir ali a Mafra. Diz que tem uns pastelinhos muito bons.


Imagem da A5 hoje, às 9h00 da manhã, com um contingente policial a impedir a entrada de carros, no sentido Lisboa - Cascais.

Aquel gente toda que se vê de pé, para além dos polícias, são motards, desmontados, em amena cavaqueira.

Claro que o trânsito no sentido contrário atascava por causa dos palermas dos curiosos. Mas isso fica para outro post.

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