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Dose diária de desgraça

por jonasnuts, em 29.05.09

Acompanho o mais longe possível, tanto quanto me permite o meu dia-a-dia, os casos relacionados com crianças.

 

Não que não me preocupe, pelo contrário, mas porque tenho de me preservar, e acho muitíssimo cínica esta avidez de desgraça.

 

Excluindo os que estão directamente relacionados com as coisas, todos os outros, que falam no café sobre as Joanas, as Maddies, as Esmeraldas e as Alexandras, apenas seguem esses casos para terem a sua dose diária de escândalo e de miséria. São abutres sentimentais. Precisam de olhar para a desgraça alheia para sentirem que, afinal de contas, não estão assim tão mal.

 

E os órgãos de comunicação social, na generalidade, exploram este vício até ao tutano. Afinal de contas, sempre é mais barato comprar um pasquim ou ligar a televisão  do que uma dose de heroína ou cocaína (presumo).

 

A alternativa são as novelas, mas eu acho que as pessoas já não distinguem a realidade da ficção. As novelas e os telejornais são seguidinhos no alinhamento, confunde-se tudo, o tom cada vez menos noticioso e cada vez mais de entretenimento com que nos servem as notícias funciona como uma espécie de aperitivo para a novela que vem a seguir. E as pessoas falam com a mesma normalidade e nas mesmas circunstâncias da criança que foi assassinada e do personagem da novela que foi abusada sexualmente. É um encadeamento. Ficção, realidade, não há distinção, nem é importante que haja......é tudo lá longe, e tudo serve para validar a monotonia da vidinha real.

 

As pessoas gostam de desgraças. Principalmente alheias, mas as própria também. Adoram falar das suas doenças, dos seus problemas, dos seus dramas, adoram receber o olhar de comiseração dos seus interlocutores.

 

E a mim cansa-me, confesso, esta pequenez de espírito.

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