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Dos gelados

por jonasnuts, em 29.03.09

Eu acho que o sabor dos gelados da nossa infância é como os cozinhados das nossas avós. Andamos sempre à procura deles, e nunca os encontramos. Gosto muito de gelados. Mas há mais ou menos 15 anos que não como um gelado que me encha as medidas.

 

 

Durante anos a fio, no passeio do costume, com o avô César, parávamos sempre no mesmo sítio, e ele me dava uma nota de 20 escudos e ficava à porta, enquanto eu entrava sozinha, numa geladaria onde eu era quase sempre a única cliente. Era uma geladaria em tons dos anos 50, um verde água meio deslavado, iluminada q.b., uns balcões em vidro, enormes, e os gelados guardados debaixo dumas tampas metálicas com umas pegas pretas. O senhor que vendia os gelados vestia um avental branco, e já me conhecia, claro. Mas atendia-me sempre com o mesmo ar profissional, o que vai desejar hoje? Como se o pedido não fosse sempre o mesmo. Boa tarde, queria um cone de dois sabores, caramelo e café. Pagava com a nota, recebia o troco (sim, havia troco) que devolvia ao meu avô, enquanto piscava os olhos que tinham saído da penumbra da geladaria.

 

Depois completávamos a volta, enquanto eu comia o cone, o melhor caramelo e o melhor café que alguma vez comi na vida. Tenho andado à procura deles. Sem sucesso.

 

Muito depois de me tornar adulta, ainda passava por lá, para comer um cone, caramelo e café, já pago do meu bolso. Não tinha a mesma piada, faltava-me o meu avô, mas tinha o mesmo sabor. Os meus amigos queriam ir ao Surf, mais moderna, mais na moda, mas eu sempre preferi aquela (apesar de ter comido muitos gelado no Surf, ao princípio, quando os gelados de baunilha com cobertura de chocolate eram feitos no momento, e o chantilly era único, meio salgado)

 

Há 10 anos (mais coisa menos coisa) a loja fechou. É um Celeiro, comia dietética. Que coisa mais anacrónica. Nunca lá entrei, nunca lá entrarei. Pindéricos.

 

 

Continuo à procura daqueles sabores, caramelo e café. Não encontro. Faz-me falta o meu avô, também. Como, mas não me convencem. Gosto do Haggen Dazz de doce de leite, e pouco mais. Há uns tempo falaram-me do Concha Nata, em Alvalade. Não conhecia. Tive esperanças que por ser relativamente perto da outra pudesse ter herdado qualquer coisa. Nada, com as recomendações que me tinham feito, fiquei a olhar para aquele mar de molho de morango, com sabor a remédio, isto é que é o famoso Concha Nata? Já vos dizia onde é que podiam enfiar o Concha Nata.

 

A geladaria chamava-se Roma, apesar de estar na João XXI. Nunca haverá outra igual. Ou se calhar há, eu é que já não tenho 7 anos.

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José Joaquim Pereira, assim, simplesmente, se chamava o meu avô materno.

Tive dois grandes avôs, por sinal até tive 3, mas um deles não sei se era grande, porque nunca o conheci. Os dois que conheci eram grandes, cada um à sua maneira, e os dois tão diferentes um do outro que eu sempre achei que viviam em universos paralelos, e provavelmente viviam mesmo.

Um post do Markl recordou-me o meu avô Zé. Diz o Markl que viu um filme qualquer em que lhe apeteceu gritar ao projeccionista para passar outra vez uma parte. E isto lembrou-me o meu avô, porque ele foi projeccionista, em mais do que um cinema. Mas não foi só isso, foi tantas coisas mais.

Acho que o que melhor definia era ser do contra. Ia quase sempre no sentido oposto do da manada. Acho que essa deve ser a característica que herdei, daquele lado. Nunca foi um avô muito presente, andava sempre em filmagens, em África (sim, era operador de câmara), e também fazia fotografia. Uns anos mais tarde, já a trabalhar em publicidade, descobri que ser neta do Zé Pereira fazia de mim uma pessoa especial. O meu avô ensinou muito, a muita gente.

Nunca me oferecia prendas no meu aniversário. Mas sem data marcada apareciam assim umas coisas estranhas. Uma vez ofereceu-me um relógio Sharp, quando ainda não havia relógios digitais em Portugal. Era um relógio de homem, que tinha por missão mostrar o potencial do seu som. Sabem aqueles toques irritantes de telemóvel na era pré-polifónico? Era assim o meu Sharp. Um sucesso, no meu 7º ano.

Tinha uma pachorra desgraçada, às vezes. Uma vez passou dois dias inteiros, comigo, em casa, a encadernar um trabalho da escola. Sim, também foi encadernador. O resto do pessoal entregou umas folhinhas, eu entreguei um livro, com lombada e tudo. À séria.

Desaparecia com frequência. Sabem aquela história do homem que diz à mulher que vai comprar cigarros e volta 3 anos depois, porque esteve não sei onde? É o meu avô, e esteve na Guiné, em filmagens. Os cigarros eram SG Filtro.

Tinha histórias fantásticas, loucas, inverosímeis às vezes. Conhecia toda a gente, esteve em todo o lado e tinha sempre opinião. Ligava pouco a convenções.

Na fase final da sua vida estava preso, coisa que detestava, à obrigatoriedade de fazer hemodiálise. O caso clínico do meu avô, nos Estados Unidos, teria feito de nós milionárias, coisa que lhe agradaria muitíssimo, porque nunca teve um tostão, mas sempre jogou, primeiro no totobola, e depois no totoloto. Com chaves que podiam entrar. Imagino a loucura que seria com o Euromilhões. Esta mania não fui eu que a herdei :)

Nunca tive pena do meu avô. Mesmo nos últimos anos em que a coisa não corria muito bem, fisicamente. Também nunca o ouvi queixar-se.  Mas porra, fartou-se de viver e de curtir. Nem sempre as coisas lhe correram de feição, mas lá viver, ele viveu.

Curioso, ao escrever este post descubro que tenho mais do meu avô do que aquilo que pensava. Descubro também que tenho saudades.

Gostaria destas coisas da Internet. Imagino-o frenético, a comentar posts, e a falar das suas histórias. Um Blog do meu avô seria extraordinário. Uma relíquia histórica, com pontos de vista muito peculiares, de quem viveu mais do que a maioria.

Ainda me lembro da cara de puro deleite quando pegou na câmara de vídeo (das primeiras que apareceram, uma Sony pesadíssima, mas mesmo assim uma pena, comparada com as que ele costumava andar), olhava fascinado, e o foco automático sempre o deixou por um lado curioso, por outro de pé atrás.

Um dia desafio a minha mãe e a minha irmã, para construir o arquivo possível das suas memórias.

Tenho pena que o meu filho não tenho conhecido o meu avô, e tenho pena que o meu avô não tenha conhecido o meu filho. Ficaria inchado de orgulho, por saber que o Pereira continuava, pujante, num varão que dará continuidade ao apelido. Foi também por causa disto que dos meus apelidos todos, o que escolhi para o meu filho foi o Pereira.

Um dia cato uma foto do meu avô e ponho-a aqui. Talvez se avançar o tal arquivo esse possa ser o momento inaugural.

Ah, e antes que me esqueça, e para que fique o registo histórico da coisa, o Manoel de Oliveira, ao contrário do que se pode ver na ficha técnica,  não realizou o Aniki Bobó.

Fogo à peça.

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