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Quem não deve, não teme

por jonasnuts, em 07.06.14

Este vai ser um post longo, e vai ser sobre privacidade, e porque é que eu sou tão assanhadamente defensora da minha (e da dos outros, já agora). E vai contar uma história, real, e assustadora.

 

Quando rebentou o escândalo sobre a vergonhosa recolha que a NSA faz de dados de todos (americanos e não americanos), e do polvo que montou para aceder, sem quaisquer restrições, aos dados de qualquer pessoa, sem ter de pedir autorização a um tribunal, muitos foram os que vieram (e continuam a vir) com o argumento do "quem não deve, não teme". Isto é algo com que me tenho deparado muito, ultimamente. As pessoas não se importam que lhes chafurdem os dados pessoais, os mails, os documentos que têm alojados em servidores, as chamadas telefónicas, tudo, que lhes esmiúcem a vida porque, lá está, quem não deve não teme.

 

Este argumento é perigoso. Por vários motivos. O primeiro dos quais tem a ver com a incorrecção da coisa. Quem não deve. Todos devemos. À luz da mente retorcida de alguns terceiros, todos nós, em algum momento da vida fizemos (ou havemos de fazer), coisas que não devemos. Portanto, todos temos de temer.

 

E é aqui que começo a contar a tal história que prometi ao princípio.

 

Sabem qual foi o país ocidental onde mais judeus foram mortos, durante a 2ª guerra mundial? Proporcionalmente falando (número total da população, versus número de judeus que faziam parte dessa população). Foi a Holanda. Quem diria, a Holanda, um país conhecido há muito pela sua abertura e tolerância.

 

Agora vamos aos porquês. Os holandeses são, e sempre foram, um povinho muito organizado. Gostam de ter tudo no sítio. Tinham uma base de dados extensa e muito completa, por via dos censos regulares, dos hábitos do seu povo. Religião incluída. Quando os nazis ocuparam aquela merda, e os reis zarparam para Inglaterra, a única coisa que foi preciso, foi ir ao arquivo do instituto nacional de estatística lá do sítio, pegar no último censos, e ir à cata dos judeus, cuja religião estava bem assinalada nos formulários.

 

Resultado? 

 

90% (e é uma estimativa conservadora) da população de judeus foi dizimada. Repito, é a maior taxa de morte de população de judeus durante a 2ª guerra mundial, por país.

 

Porquê? Porque a informação estava lá. Fácil de encontrar e de recolher.

 

Teriam os judeus razões para temer? Não, mas deviam, aparentemente.

 

Se calhar estas pessoas também achavam que, quem não deve, não teme. E por isso não tiveram problemas em prestar informação acerca de tudo e um par de botas. E depois lixaram-se, Com f de cama.

 

Na era em que vivemos a recolha e concentração de informação é cada vez mais fácil. Há apps para isso. Disponibilizamos informação às vezes sem nos apercebermos disso, e fomos ensinados a desvalorizar. Mais, disponibilizar informação pessoal, é até um hobby. Pior, a fronteira entre o que é pessoal e o que não é pessoal deixou de ser clara. 

 

As gerações mais novas já integraram a palavra "partilhar" no seu ADN. E não deviam.

 

A recolha de informação pessoal, mesmo que seja pelos motivos mais límpidos do mundo, deve ser SEMPRE recusada e combatida. Porque, por mais puros que sejam os motivos dessa recolha, a informação fica lá, disponível, para que pessoas, organizações, movimentos, empresas, instituições, governos, eminências pardas e outros que tal possam aceder-lhe, e dar-lhes o uso que muito bem entendam.

 

Para finalizar. Informação pessoal não são apenas os nossos dados bancários, ou o nosso historial clínico. Informação pessoal são os nossos gostos (os likes no facebook são um bom exemplo da facilidade com que disponibilizamos informação pessoal), onde estamos (georreferenciação), por onde andamos, as nossas fotos, os nossos vídeos, as nossas posses, os nossos medos. 

 

Brevemente, outro post sobre o tema, desta vez para desmontar o argumento "sou tão insignificante que ninguém se interessa pelas minhas coisas, portanto, ninguém vai espreitar".

 

Acordem, porra.

 

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5 comentários

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De Paulo Soares a 07.06.2014 às 14:47

Partihar é uma necessidade nos dias que correm. Faz bem e é necessário para uma sociedade da informação.

O que se deve é ter uma percepção que tal como no relacionamento directo com outras pessoas, também quando partilhamos na net há consequências.

Para além da Holanda muitos judeus foram descobertos, por vezes porque somente partilharam com os amigos que o eram... mas foi suficiente.

Não creio que viver seja mais completo se nos escondermos em casa e não conhecermos ou nos relacionarmos com ninguem.

Agora claro que infellzmente vamos descobrindo que existem empresas que tem interesse nos nossos dados, gente que ganha dinheiro com isso e estados que permitem desenvolver os seus polvos como a NSA... Devemos é lutar contra esses abusos, formalizar o melhor possivel o uso que são feitos dos nossos dados e rapidamente formarmos os nossos filhos para uma consciencia de que o simples partilhar pode ter...

Não está facil reconheço, mas tal como com aquele amigo a quem confidenciámos o que não deviamos, a net nem sempre é nossa amiga. :-)
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De Marco Baptista a 07.06.2014 às 15:21

sempre que ouço alguém a dizer isso, respondo sempre desta forma:

Tipo 1: é pá os vermelhos é que são fixes.

Bufo: Oh srs da PIDE ali o tipo 1 é comunista, ouvi-o a dizer que os vermelhos é que eram fixes.

srs da PIDE prendem o Tipo 1 para ver se este é mesmo comuna, la pelo meio leva uns açoites, fica uns dias sem ver a família.
No final lá chegam à conclusão que o tipo não é comunista nem os vermelhos são do PCP.

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De papillon a 08.06.2014 às 10:21

tal e qual... há anos que tento passar a mesma mensagem, mas as pessoas parecem uma cambada de patetas alegres sem noção do mundo em que vivem... no fundo, se fores apenas mais uma peça de engrenagem da máquina capitalista, fizeres o teu papel, e estiveres calado a um canto, ninguem te chateia.
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De Luis Moreira a 09.06.2014 às 22:18

Toda a razão.
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De Sérgio M. a 11.06.2014 às 15:04

Eu sei que o assunto é sério, mas....

"E depois lixaram-se, Com f de cama."

I LOL'ed.

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