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Claro que o título do post generaliza, e toda a gente sabe que as generalizações são perigosas (e injustas). Mas não deixa de ser (ainda) verdade, para muitos casos.

 

A história conta-se rapidamente e cheguei lá por via do TechDirt. Havia (note-se o tempo verbal) um site, com cerca de 15.000 utilizadores registados, chamado LendInk. Este site era uma rede social baseada em gosto pelos livros. Punha em contacto utilizadores de e-books como o Kindle (Amazon) ou o Nook (Barnes and Noble) , e essas pessoas podiam, se quisessem, emprestar e-books umas às outras.

 

Note-se que este empréstimo é uma funcionalidade que existe quer na Amazon quer na Barnes and Nobles, e que funciona mais ou menos como o empréstimo de um livro e papel, com a diferença de que apenas pode ser emprestado uma vez à mesma pessoa, e por um período máximo de 14 dias. É um acto legal, gerido no backoffice da Amazon (para quem tem Kindle) e da Barnes end Noble (para quem tenha Nook).

 

O LendInk não alojava livros, não disponibilizava livros para download, não tinha, sequer, modelo de negócio associado. Era mantido por um veterano de guerra americano que, nos tempos livres, tratava da coisa.

 

De repente, uma série de autores, via twitter, começa a comunicar entre si (e publicamente) acerca deste site "pirata". Espalha-se a notícia. Ameaçam com DMCA e como isso não se mostra imediatamente eficaz, escrevem hate mail à empresa que aloja os servidores e fornece o serviço à LendInk.

 

Meu dito meu feito, em três tempos o serviço é suspenso.

 

Os autores em causa (segundo creio, está a ser elencada uma lista que será pública a fim de que possam ser evitados por quem compra livros - eu quero a lista), nem sequer se dignaram em tentar perceber o que era aquilo. Foi logo uma escandaleira. À mínima possibilidade de alguém usufruir do seu trabalho, legitimamente comprado, gritam pirataria. Não percebem várias coisas. A primeira é a velha história do menino com o lobo, tanto gritam injustificadamente, que mais coisa menos coisa, ninguém acredita neles. A segunda é que emprestar livros não é ilegal. Se acham que emprestar livros é ilegal, atirem-se às bibliotecas (que devem dar pouco trabalho, pelo menos em Portugal, que a coisa já está por fios). A terceira é, quanto a mim, a mais grave. Não percebem o valor do seu trabalho. Não compreendem a relação que muitas pessoas têm com os livros. Não sabem reconhecer uma boa ideia base, sobre a qual podia ter sido, perfeita e facilmente, montado um modelo de negócio de VENDA dos seus livros.

 

É preciso ser-se muito burro para não identificar uma óptima ideia, que poderá transformar-se em mais um canal de VENDAS.

 

Se me emprestam um livro de que eu gosto, a seguir, eu compro. Compro esse e compro mais, do mesmo autor. Eu sei que os autores não são obrigados a perceber isto, mas caraças, não deveria haver na indústria quem lhes explicasse?

Acreditam única e exclusivamente no trabalho de divulgação de quem faz negócio à sua custa (intermediando e em muitos casos, acrescentado valor, é um facto). Acreditam em modelos antigos de críticas em jornais de referência, em cocktails de lançamento, em passatempos, em tops (essa figura que nada tem a ver com a popularidade real dos livros, e que depende apenas daquilo que as livrarias precisam de escoar), em imprimir cartazes, em sessões de autógrafos. Não percebem que muita gente (sobretudo quem tem leitores de e-books) tem uma forma de chegar aos livros completamente diferente. A web 2.0 já foi há uns anos (quase 10, para ser mais precisa), já é hoje um conceito em desuso, e eles ainda nem sequer lá chegaram. Eu borrifei-me nos críticos, e nos tops e no marketing tradicional. Eu chego aos livros por recomendação de alguém que eu conheço ou em cuja reputação confio. Falei (auto-link) disso há pouco tempo.

 

Caramba. É preciso ser-se muito atrasado.

 

Tiro no pé, atrás de tiro no pé, atrás de tiro no pé. E depois queixam-se que estão a perder negócio. Fónix...... não admira. Não se consegue manter um negócio numa indústria que se desconhece.

 

Vão ler livros pá. Este pode ser um bom ponto de partida.

 

O Facebook da LendInk tem mais informação, para quem estiver interessado.

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14 comentários

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De Tchetcha a 14.08.2012 às 10:54

Por acaso ainda não tinha sabido desta escandaleira, normalmente estou mais atenta a outras estilo escritores vs bloggers.
Sim, a indústria está a passar por uma fase de águas muito turvas, com pressões de várias frentes e por isso os escritores reagem de formas menos correctas, sem o mínimo de informação de suporte antes de reagirem.
No entanto focaste um ponto com o qual eu concordo e muitos parecem não perceber: se eu gostar de um livro eu compro-o. Compro-o para mim, compro para oferecer, recomendo-o, falo dele a toda a gente. Ir buscar um livro a uma biblioteca ou pedir emprestado a um amigo é (na perspectiva do consumidor) igual como ouvir uma música na rádio: é um passo mais perto de comprar o álbum ou o livro.
Infelizmente o mercado está hoje minado dos ditos autores indie ou auto-publicados que além de terem de escrever um livro, têm de promover as suas vendas junto do público. Acho que a pressão de acumulação de funções acaba por originar este tipo de situações, em que cada venda é dinheiro para o bolso e vêm cada empréstimo como um roubo. Não sei se esta situação teve origem num grupo de escritores desse tipo ou não, mas sinto-me tentada a achar que sim.
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De sem-se-ver a 14.08.2012 às 10:54

evidentemente.

e palmas.
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De paula a 14.08.2012 às 13:18

Isto irritou-me, principalmente porque isto denota que a propaganda está a dar resultado.
Neste caso, era legal porque os autores deram autorização.

Em Portugal, do que leio na lei, o empréstimo só é legal se for feito através de estabelecimento acessível ao público, sendo que o proprietário tem de pagar uma taxa, excepto se for uma biblioteca pública, universitária, museu, etc. Se bem que o sr. Secretário de Estado da Cultura já fez saber que a seguir se vai atirar a estas bibliotecas...

Uma vez que o nosso sistema de direito de autor parte do pressuposto de que o autor tem todos os direitos e depois a lei descreve as excepções, deduzo que se o empréstimo entre pessoas que não seja através de estabelecimento acessível ao público não está descrito, então não é permitido.

A Optimus lançou aqui há tempos um serviço de livros de papel na televisão, mas neste caso NÃO é empréstimo, é uma troca: as pessoas dão livros, recebem pontos e depois podem trocar esses pontos por outros livros (http://fibra.clix.pt/tv/winking-books/winking_books.html)
Já vi outros sites que usam o mesmo sistema.

Em princípio, emprestar um livro de papel a um amigo não é permitido. Mas podemos sempre dar o livro ao amigo e fazer um contrato com ele, em que o amigo nos tem de dar um livro igual passado uns tempos...

A declaração do Secretário de Estado da Cultura preocupa-me porque atacar as bibliotecas é, para além de ignóbil do ponto de vista social, meio caminho andado para dar cabo das vendas dos livros.
E eu sou um exemplo disso: passei a minha infância e juventude em bibliotecas. Os meus pais não tinham dinheiro para me comprar todos os livros que eu queria e mandavam-me à biblioteca. Ainda guardo dois livros que a biblioteca da escola me deu na 3ª e 4ª classe por ter sido uma das alunas que mais leu nesse ano.
Hoje sou uma pessoa que compra imensos livros: devo ter cerca de 5000 (valor por baixo), comprados por mim.
A única explicação que encontro para este exagero (chamo-lhe assim porque chega uma altura em que o espaço não é suficiente) é o facto de ter lido centenas de livros que me foram emprestados pelas bibliotecas.

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De paragon a 14.08.2012 às 14:28

Gostaria de ter acesso à lista!
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De paula a 14.08.2012 às 14:36

O autor deste blog está a tentar fazer uma lista:
http://www.2abd.com/politics/copyright/lendink-taken-down-by-asshole-indie-authors/
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De João Pedro Lopes a 14.08.2012 às 14:45

Não podia estar mais de acordo contigo. Na área da música já há quem tenha percebido o potencial da partilha e da recomendação. Na comédia igualmente, como o exemplo do Louie CK que vendeu por um preço muito baixo o vídeo do seu espectáculo evitando intermediários desnecessários. Mas a maioria continua na cegueira do cifrão que tolda a inteligência de um modo inexplicável...
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De AF a 14.08.2012 às 14:56

Ora bem, a pedido de muitas famílias, aqui fica o link para a lista: (esta foi a mais completa e com mais actividade que encontrei)

http://www.2abd.com/politics/copyright/lendink-taken-down-by-asshole-indie-authors/

Depois, e baseado no que tenho lido sobre o assunto, alguns comentários:

- Os autores não usaram queixas DMCA neste caso, aparentemente foi tudo à base de cartas C&D (cartas, e não ordens validadas por tribunal; ameaças portanto)

- Os autores, neste caso, resumem-se a umas centenas de assim chamados "indie"; na realidade a grande maioria são "respeitáveis" donas de casa de meia-idade que escrevem "obras" erótico-vampíricas, ou variações semelhantes. (nota: não tenho nada contra donas de casa de meia ou qualquer outra idade, vampiros ou literatura erótica)

- Os autores, para além de manifestamente serem incapazes de ler e interpretar textos básicos (tais como a página FAQ no LendInk ou os contratos assinados pelos próprios com a Amazon ou B&N), são decididamente ignorantes relativamente à web.

- Das várias discussões que li sobre o assunto, reparei que de entre todos os autores em causa, uma pequena minoria tentou activamente informar e educar os seus pares, sem sucesso. Outros ainda, que se podem contar pelos dedos de uma mão, vieram a público assumir o erro, e procuram activamente minimizar o mal que causaram, através de declarações públicas, artigos de blog, participação activa em discussões, etc. A grande maioria, no entanto, permanece calada. Outros ainda, continuam obstinadamente satisfeitos pela "vitória", tentam ainda hoje distorcer a verdade, através de tentativas parvas como alterar artigos de blogs (não conhecem o google cache), tentar fazer passar a ideia que o site era afinal lendLnk, com L minúsculo em vez de I maiúsculo (com a tentativa ridicula de compra do dito domínio, apesar da info do registo indicar claramente a compra numa data posterior aos factos)

Em resumo, tudo isto porque, entre outras coisas, há autores que assumidamente acham que cada empréstimo de um livro representa dinheiro que lhes é devido. Eu não sei como é convosco, mas a mim esta ideia repugna-me. Deixa-me mesmo furioso!
Por isso, é melhor terminar o comentário ;)
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De AF a 14.08.2012 às 14:59

Ooops! Quando comecei a escrever ainda não havia nenhum comentário com o link para a lista. Sorry pela repetição! ;)
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De Fernando Vasconcelos a 14.08.2012 às 19:39

A proibição de emprestar seja de que forma for é uma restrição inadmissível e ilegal ao direito de propriedade consagrado na constituição da maioria das nações do mundo e como tal é ilegal. Só é pena é que obviamente os tribunais apenas sejam na verdade acessíveis a quem tem dinheiro e tempo porque caso contrário nenhum destes casos alguma vez teria outro desfecho que não fosse a condenação dos autores, supostas vitimas ... A bem dizer não conheço nenhum autor sério que não concorde comigo ...
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De AF a 14.08.2012 às 21:28

Pois... a questão dos empréstimos, no caso dos ebooks , é a manifestação da evolução tecnológica em curso, e da tentativa de fazer com que a realidade seja diferente do que é, através de legislação. É um bocado como a história dos condutores de charrettes , face ao aparecimento do automóvel. Na altura, entre outros factores, o "peso" da indústria automóvel foi mais forte. Actualmente, parece que vivemos num mundo dominado por condutores de charrettes intelectuais. ;)
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De Fernando Vasconcelos a 15.08.2012 às 11:07

Pois é isso. Eu que tenho um Kindle (aliás devo dizer que foi a melhor compra que fiz em electrónica desde há muito tempo - recomendo sinceramente) até hoje nunca tinha experimentado o empréstimo. Graças a estes autores vou fazê-lo só para contrariar :-)
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De jonasnuts a 15.08.2012 às 11:09

Eu vou de férias, mas quando regressar, ponho aqui uma lista de livros do Kindle que tenho, e que estão disponíveis para empréstimo :)
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De Eva a 14.08.2012 às 16:25

Olá :) Estou com um problema na personalização do meu blog (http://odile.blogs.sapo.pt/) não consigo tirar os três borders cinzentos. Como posso fazer para os tirar? Beijos e obrigada!
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De jonasnuts a 14.08.2012 às 17:01

Colocar a questão no sítio certo é um bom princípio :) Eu não percebo nada de borders :)

O blog que procuras é o http://blogs.blogs.sapo.pt :)

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