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Quando morre alguém

por jonasnuts, em 11.05.12

Tenho este post atravessado há uns anos. Há tantos anos que eu ainda nem sequer tinha Blog. O atravessamento agravou-se aquando da morte do Miguel Portas, e agora o Bernardo Sassetti parece ter sido a gota de água.

 

Quando morre uma figura pública, acabou-se, para nós, que não lhe éramos próximos. Para nós comuns mortais, que não fazíamos parte do seu círculo de amigos, acabou-se o tempo de homenagem. Porque as homenagens ou manifestações de apreço só servem enquanto as pessoas estão vivas. Se morre um artista de cuja obra eu tenha sido apreciadora, é enquanto ele é vivo que eu manifesto o meu gosto. Seja comprando o que ele produz, seja assistindo aos seus espectáculos, seja, para os que têm mais lata e em se apresentando a ocasião, pedindo um autógrafo e, para os que tenham mesmo MUITA lata, abordando essa pessoa (atenção, não me refiro a stalkers), e dizendo-lhe "olhe, gosto muito do seu trabalho, obrigada".

 

Mas, no momento em que ele morre, acabou-se. Para mim. Apreciadora do trabalho. Já não há tempo para mais homenagens, a obra fica, mas o artista morreu, ali, naquele preciso momento em que o corpo deixou de funcionar, seja qual tenha sido a razão dessa paragem.

 

O momento a seguir não é para os fans ou apreciadores do artista/figura pública. O momento a seguir é para quem perdeu um pai, uma mãe, um filho, um amigo. A partir do momento em que essa pessoa morre, deixa de nos pertencer e passa a pertencer apenas aos que deles eram próximos, aos que dele gostaram, e teriam gostado, independentemente da profissão que tivesse escolhido.

 

O circo que se monta à volta da morte das figuras públicas é, para mim, odioso. E as pessoas que estão realmente a sofrer, ainda têm de arranjar forças para levar com o circo, quando a única coisa que querem é aguentar-se nas pernas, e já basta o que basta, não é preciso circo. O circo serve para deixar as pessoas mais exaustas, mais vazias. O circo é uma imposição que ninguém merece.

 

Em tempos tive um amigo que era uma figura pública muito conhecida e muito querida. Quando ele morreu, a família mais próxima era constituída por meia dúzia de pessoas. Pessoas que queriam chorar o marido, o pai, o padrasto, o amigo. Pessoas que tiveram de preparar uma cerimónia que queriam intima e discreta, numa das capelas laterais da Basílica da Estrela, e que de repente se viram na necessidade de mudar tudo, para que fosse na nave central, e contactar a polícia porque o trânsito estava interrompido, e que tiveram de se esmifrar para cumprir os desejos do morto (nestas coisas toda a gente tem opinião de como se deve fazer a coisa, e nós só queríamos cumprir as últimas vontades desse tal amigo). E tiveram ainda que passar horas e horas e horas em que apenas lhes apetecia chorar, a fazer sala, junto de perfeitos desconhecidos que repetiam, julgando-se originais, a mesma lengalenga "gostava muito do seu pai". Ad Eternum.

 

Uma figura pública, quando morre, deixa de ser nossa. Passa a ser só da família. Tudo o resto é circo cheio de palhaços. Pobres. De espírito.

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18 comentários

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De Fernando Vasconcelos a 11.05.2012 às 18:59

É uma perspectiva, não será com toda a certeza a única. Admito que seja verdade o que diz mas também admito que existam aqueles (familiares) que retirem das provas dessa estima - por vezes verdadeira - força. Acho que tudo depende de sabermos onde parar, isto porque se em vida há uma diferença entre fãs e stalkers na morte também existe uma diferença entre homenagem e ausência de noção da distância devida, IMHO.
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De jonasnuts a 11.05.2012 às 19:03

Eu percebo isso, de retirar força dos comentários daqueles que privaram com a pessoa. Se morre um amigo, vou ao funeral, mesmo que não conheça a família directa, e falo um bocadinho com os familiares, explico porque é que aquela pessoa foi importante para mim. Mas isso é conhecendo a pessoa. Não apenas a obra ou a parte mais pública da vida dessa pessoa.
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De Frederico Carvalho a 11.05.2012 às 19:49

O espaço temporal da obra criada pelo autor não tem tempo. Não importa se está vivo ou se está morto físicamente, porque a sua vida experiênciada, foi intensificada para que outros conhecessem o seu trabalho. E ele foi apreciado e serviu memórias de outros.
Ainda mais em casos tão singulares como a arte, e neste último a música.
Essa conquista do espaço público, começou pelo autor e não mais é desligado, porque as pessoas vivem com as suas memórias e recordações na apreciação da obra do autor.
A ausência de continuidade, para que a memória evolua é uma dor para quem quer que fosse que dela apreciasse.

A família, amigos, são apenas designações de grupo para pessoas que melhor conheciam pessoalmente o individuo e que têm uma responsabilidade acrescida na preservação da sua memória.

Quando se trata de uma pessoa com mais vilibidade, descrita como figura pública, a família e amigos, sempre souberem agora, como antes, que o seu espaço pessoal, é partilhado com o profissional. E muitas sofrem com essa mistura, com essa falta de tempo para viver experiências propria e não com a multidão.

Por fim, a verdadeira memória é aquilo que eles (família) vão deixar enquanto a memória da pessoa, do autor, ao criador para a memória sejam respeitada no tempo.

Às vezes, não é preciso fazer nada, porque as pessoas celebram a vida do autor relembrando-o, para que outros conheçam a força das suas intenções.
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De css a 11.05.2012 às 21:56

Magnífico texto.
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De Kitty Fane a 11.05.2012 às 22:38

Desde que se saiba respeitar a fronteira entre o que é pessoal e o que é público, e desde que se respeitem os amigos e familiares, não estou a perceber qual é o problema das manifestações de carinho e homenagens por parte dos admiradores do trabalho da figura pública que morre. Claro que por vezes não é fácil para a família e amigos, mas quando se é figura pública sabe-se que essas coisas são inevitáveis e têm de se compreender (e acredito que a família até goste de ver o seu ente querido recordado e acarinhado pelas pessoas).
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De jonasnuts a 11.05.2012 às 22:43

O problema é o "desde que". Não existe.

Os entes queridos certamente gostarão de saber, mais tarde, que houve capas de jornais, e referências na TV, e nos Blogs e vídeos e homenagens, sem dúvida. Duvido é que queiram, na noite do velório e no dia do funeral, ser confrontados com essas homenagens, e terem de ser bem educados, e não poderem estar descansados, com a sua dor.
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De Visigordo a 12.05.2012 às 00:15

Apesar da coisa que envolve, eu diria, brilhante!
Quem se farta de defender estas pantominadas, aconselhava a assistir ao funeral do... da.... alguém muito próximo.
E depois, com a carga de dor, ainda terem capacidade para processar qualquer mensagem.
A bem dizer, quando um ente nosso morre, queremos é sossego, distância, paz, tranquilidade.
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De lady magenta a 12.05.2012 às 17:01

Concordo em género, grau e número!
Certamente que não escreveria melhor...
; )
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De Francisco Gomes a 12.05.2012 às 18:06

Se alguém pode ser considerado figura pública, o jogador de futebol é uma delas. Mesmo que essa figura pública tenha actuado nos tempos remotos em que não existia tanta frivolidade, hipocrisia, cinismo, canalhice! Nesses tempos remotos, amigo era amigo e ponto final. E mostrava-se essa amizade, reconhecimento e proximidade quer ele estivesse vivo, quer tivesse falecido.
O meu Pai foi jogador de futebol. Campeão Nacional em 1945/1946 pelo Clube de Futebol os Belenenses, a última vez que este clube viu e saboreou esse título. Quando ele faleceu há precisamente 50 anos, ninguém desse clube se dignou representá-lo (nem que fosse o porteiro, o cobrador de quotas) no seu funeral, colocando a bandeira do clube em cima do caixão, representando por esse acto, um agradecimento a quem trabalhou e deu tudo pelo clube.
Indignei-me na altura, não por pretender notoriedade ou publicidade - passe a expressão - ao acto funerário, mas porque pensei que o meu Pai merecia um pequeno reconhecimento por parte da sua antiga entidade patronal. E se alguém sentiu a dor pela perda de um Pai, hoje, passados 50 anos dessa data, a dor continua persistente como nesse dia. Porque ele, além de Pai, era um Amigo, um Companheiro.
Esta estória tem a ver com o seu texto. Pode haver exagero nas manifestações funerárias de figuras públicas, a família pode sentir-se condicionada e pressionada por essas manifestações, numa altura em que o que mais deseja é sossego, paz, serenidade, para enfrentar a dor da perda do seu ente querido. Mas o reverso da medalha também pode ter as suas mazelas psicológicas. Não que eu tivesse ficado com elas por os Belenenses não terem levado a bandeira do clube ao caixão do meu Pai, mas pela falta de reconhecimento do trabalho desenvolvido por ele, enquanto profissional do clube. Ele era considerado uma das 3 Torres do Restelo. Engraçado, porque publicamente nunca aflorei este assunto que ainda hoje me dói (a morte do meu Pai), mas não me contive ao ler o seu texto.
Há quem não deseje "publicidade" no falecimento dos seus entes queridos por inúmeros motivos, todos eles justificáveis, mas há quem se interrogue, se ela (publicidade) não existe, o falecido, como figura pública, deveria ser um zero à esquerda de muitos zeros, por isso a indiferença e a ausência dessa mesma publicidade.
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De jonasnuts a 12.05.2012 às 18:56

Compreendo o que diz...... mas, aquilo de que sentiu falta foi da homenagem de alguém que tinha conhecido o Homem, que lhe tinha sido próximo, que, em alguns casos, teria sido até amigo.

Isso é uma omissão, é uma falta, de quem conheceu, directamente a pessoa.

Não é uma intrusão (que é aquilo a que me refiro) por parte de muitas pessoas, que nunca conheceram a pessoa, apenas a sua vertente pública.
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De olhó balão a 13.05.2012 às 17:46

compreendo o que diz incluindo os procedimentos correctos a ter num funeral (deve haver um manual algures) mas (é terrivel esta "mas"), é completamente impossível, repito, COMPLETAMENTE IMPOSSIVEL, montar-se o circo a que se refere sem o consentimento da família. Basta dar uma vista de olhos pela reportagem fotográfica da sessão de homenagem ao Miguel Portas para constactar que toda a sua família se encontrava na 1ª fila.
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De jonasnuts a 13.05.2012 às 20:16

No caso em apreço, a família optou por abrir esse espaço. Qando a família opta por não abrir esse espaço, de nada lhe serve, que a coisa acontece mesmo contra a sua vontade.
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De Anónimo a 16.05.2012 às 14:11

Maria João,

TOTALMENTE de acordo... por muitas razões...!
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De jonasnuts a 16.05.2012 às 14:34

Pelo arrebatamento com que foi escrito o comentário, e pela utilização dos meus nomes próprios, presumo que uma das razões seja experiência pessoal.

Não é importante saber se é ou se não é. Apenas tenho notado que a reacção a este meu post normalmente é negativa, por parte de quem nunca passou pela "coisa" do lado de dentro, apenas do lado de fora :)
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De Alexandre Kulcinskaia a 16.05.2012 às 16:59

Concordo inteiramente e também escrevi algo neste sentido.
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De Alexandre Kulcinskaia a 16.05.2012 às 17:00

Concordo inteiramente e também escrevi algo no meu Facebook nesse sentido.

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