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Os vampiros

por jonasnuts, em 27.06.09

Tive o prazer de estar envolvida na organização do lançamento do novo livro de José Saramago, O Caderno. O SAPO Vídeos transmitiu em directo toda a sessão, houve um passatempo com perguntas dos utilizadores, algumas das quais respondidas pelo autor, durante a sessão.

 

Era suposto ser um evento relativamente breve, 1 hora. Disse-me quem o conhece mais de perto que nenhum evento com José Saramago é breve, e que se iria prolongar. Óptimo, pensei.

 

E a verdade é que se prolongou. Começou às 18h30, e às 21h30 ainda lá estava tudo. No final, as despedidas e o encerramento da coisa. Juntam-se pessoas, numa bicha (desculpem lá, mas para mim continuam a ser bichas), ordeiramente alinhada à frente do autor, a costumeira sessão de autógrafos.

 

Eu percebo a coisa dos autógrafos. Ou melhor, percebia, quando tinha 10 anos, até o Alexandre O'Neill me ter abruptamente retirado o gosto. Mas hoje, não percebo, confesso.

 

Uma coisa é conhecermos os autores, e, porque somos amigos, queremos uma dedicatória, ou querem eles oferecer-nos um livro com dedicatória. É diferente. Existe uma relação. Aquela dedicatória é para mim, pessoa que o autor conhece. Tenho vários livros com dedicatórias. Consigo perceber até o autógrafo por intermédia pessoa. Alguém que pede uma dedicatória para dar um livro a um amigo.....pronto.

 

Agora, o que eu não percebo, é que as pessoas se ponham em bicha atrás de um autor que esteve ali à conversa durante um bom par de horas e que, portanto, deve estar cansado, e comecem a sacar dos saquinhos de plástico onde trazem uma catrefada de livros.

 

Não julguem que estou a exagerar. Vi muita gente com mais de meia dúzia de livros na mão. Do autor, nem um ai, assinou diligentemente todos os livros que lhe deram para assinar. Brincou até com um destes abutres, "Oh homem, isso é a biblioteca inteira", mas sorriu, e assinou.

 

E eu não percebo como é que alguém  que diz gostar de um autor o obriga a estar ali a assinar livro atrás de livro atrás de livro quando, presumo, preferiria estar a fazer outra coisa. Acredito quando me dizem que os autores gostam de se relacionar com os seus leitores, mas uma coisa é relacionarem-se, outra coisa é serem sugados até ao tutano por pessoas que se importam pouco com a pessoa, e que querem é dizer aos amigos "eu já estive com o Saramago", e precisam duma prova, não vão os amigos julgar que estavam a mentir.

 

A sério......salvo raras excepções, e por uns momentos, quando olhei para aquela bicha de pessoas, vi um grupo de vampiros. Eles comem tudo...

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2 comentários

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De Bino a 29.06.2009 às 15:25

Este post fez-me lembrar uma vez em que ajudei um amigo meu, chamado Barradas a escolher uns livros dos quais se queria desfazer. Pretendia vende-los a um alfarrabista para, com mais algum dinheiro, comprar um Fiat Punto em 2ª mão todo artilhado. E foi com grande alegria que descobrimos que entre os livros, estava um de Saramago autografado pelo próprio com dedicatória e tudo. Suponho que o dinheiro extra derivado da descoberta daria para comprar pelo menos um rádio mais potente com leitor de cds que não estaria previsto no orçamento. Mas o estúpido do Barradas, por causa do autógrafo, preferiu guardar o livro em vez de o vender.
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De Joao A. a 07.09.2011 às 16:34

A verdade é que uma assinatura do autor aumenta exponencialmente o valor de um livro.

O Somerset Maugham , há muitos anos, ao visitar um amigo (ou amiga, já não me lembro) que atravessava dificuldades financeiras, foi à estante dele, localizou os livros de que era autor e assinou-os um por um.

Muita dessa gente que crava esses autógrafos poderá ir pôr no dia seguinte os livros à venda no Ebay ou no Miau. Ou então pode ser paciente e espera que o autor "espiche", o que aumenta a cotação do famigerado rabisco.

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