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Sexta-feira, 29 de Maio de 2009
Dose diária de desgraça

Acompanho o mais longe possível, tanto quanto me permite o meu dia-a-dia, os casos relacionados com crianças.

 

Não que não me preocupe, pelo contrário, mas porque tenho de me preservar, e acho muitíssimo cínica esta avidez de desgraça.

 

Excluindo os que estão directamente relacionados com as coisas, todos os outros, que falam no café sobre as Joanas, as Maddies, as Esmeraldas e as Alexandras, apenas seguem esses casos para terem a sua dose diária de escândalo e de miséria. São abutres sentimentais. Precisam de olhar para a desgraça alheia para sentirem que, afinal de contas, não estão assim tão mal.

 

E os órgãos de comunicação social, na generalidade, exploram este vício até ao tutano. Afinal de contas, sempre é mais barato comprar um pasquim ou ligar a televisão  do que uma dose de heroína ou cocaína (presumo).

 

A alternativa são as novelas, mas eu acho que as pessoas já não distinguem a realidade da ficção. As novelas e os telejornais são seguidinhos no alinhamento, confunde-se tudo, o tom cada vez menos noticioso e cada vez mais de entretenimento com que nos servem as notícias funciona como uma espécie de aperitivo para a novela que vem a seguir. E as pessoas falam com a mesma normalidade e nas mesmas circunstâncias da criança que foi assassinada e do personagem da novela que foi abusada sexualmente. É um encadeamento. Ficção, realidade, não há distinção, nem é importante que haja......é tudo lá longe, e tudo serve para validar a monotonia da vidinha real.

 

As pessoas gostam de desgraças. Principalmente alheias, mas as própria também. Adoram falar das suas doenças, dos seus problemas, dos seus dramas, adoram receber o olhar de comiseração dos seus interlocutores.

 

E a mim cansa-me, confesso, esta pequenez de espírito.



publicado por jonasnuts às 10:03
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6 comentários:
De Paulo Quintela a 29 de Maio de 2009 às 11:17
É o jornalismo que temos, sempre preocupado em dar palha ao burro. Por alguma razão as telenovelas tem o sucesso que têm.


De Manuel Padilha a 29 de Maio de 2009 às 11:46
Acho que vi a mesma tese defendida com igual mestria (embora com argumentos diferentes, como seria de esperar) num qualquer episódio do Dr. House .

"Abutres sentimentais" é muito bem empregue.

Que as desgraças alheias servem para valorizar a monotonia da vida real parece-me indiscutível. Já no que diz respeito às desgraças próprias, acho que não é apenas pelos olhares de comiseração que se justificam, mas também por uma crença mais ou menos generalizada de que quanto mais se fala de um problema menos ele nos afecta (uma espécie de "purga por publicitação").


De KI a 29 de Maio de 2009 às 11:55
Há dias perdi horas a ler parvoeiras atrás de parvoeiras sobre este novo caso de adrenalina, depois escrevi um texto tão extenso que duvido que alguém o leia e porque me sentia tão estúpida neste país... enfim.


De Ana a 29 de Maio de 2009 às 11:56
Os gregos iam ao teatro mais ou menos com o mesmo objectivo, mas parece que deixaram uns livros jeitosos, em vez daqueles do Gonçalo Amaral.


De Sara a 29 de Maio de 2009 às 18:39
Por essas e por outras semelhantes, deixei de conseguir assistir a noticiários.



De Sílvia a 4 de Junho de 2009 às 15:09
Ainda hoje lancei uma pergunta no twitter e no FB "Ainda alguém vê a TVI?".Mas quem diz esse diz outros tantos canais de televisão que insistem em apenas mostrar lixo e alimentar essa "pequenez de espírito" infelizmente cada vez mais predominante em Portugal (e noutros lados também).
O aparelho de televisão em minha casa passou a ser um bibelô e nem sei para que ainda pago serviços de cabo porque sempre que ligo a TV acabo por me arrepender. Acusam-me de estar sempre agarrada ao pc , mas de facto eu tenho tudo o que preciso e QUERO VER à distância de um clique (e mesmo assim ainda conseguem entupir-me de publicidade e coisas que não me interessam).
Acabo por me isolar mais do que antes porque não consigo manter um diálogo uma vez que não estou actualizada relativamente a novelas e "circos mediáticos" propagados pelos vários canais de tv . Já percebi que com muitas pessoas, se gosto delas e quero ter algum tipo de contacto, preciso de vez em quando de espreitar os cabeçalhos dos jornais e assim saber pelo menos no geral o que vai acontecendo de desgraça pelo mundo fora. Com outras simplesmente reduzi o contacto para ocasiões sociais inevitáveis e resolvi a questão.
Não há pachorra para conversas inúteis e desprovidas de conteúdo!


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