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Bichos do mato

por jonasnuts, em 09.12.08

Sempre fui bicho do mato. E sempre fui impaciente. Sempre preferi ficar em casa, ouvir a minha música e dançar na minha sala, a ir para a bicha da discoteca in, fazer olhinhos ao porteiro, para que este me deixasse entrar. Aliás, com um destes simpáticos agentes da autoridade privada tenho uma história que ilustra bem o ponto de vista que pretendo expressar neste post.

 

Ia eu toda lampeira a entrar pelo Plateau adentro (quando estava na moda, parece), e o senhor aproxima-se de mim, barra-me a entrada, põe-me a mão no ombro e diz com aquele arzinho de administrador de condomínio recém-eleito "penso que não nos conhecemos". Não gostei do ar, nem da mão no meu ombro (vai lá pôr a mãozinha no ombro da puta que te pariu, espera aí que eu já te lixo), e limitei-me a sorrir de volta, retorquindo-lhe "é natural que não nos conheçamos, eu não me dou com porteiros". Obviamente nem tentei entrar depois disso. Dei meia volta e fui-me embora. No dia seguinte expliquei às pessoas com quem ia ter o que se tinha passado, e recebi de volta uma expressão que conheço há muito, rolar de olhos, suspiro, esta gaja não tem cura.

 

Aliás, a minha mãe e a minha irmã passam a vida a olhar, cúmplices, uma para a outra, quando digo qualquer coisa que lhes faz cair a ficha, aquele ar de "pois, não há nada a fazer".

 

Podia ser que a minha alma gémea me contrabalançasse, me pusesse ali uma meia medida qualquer, me adoçasse os modos, me açaimasse a impaciência, me tolhesse o mau-feitio no fundo. Felizmente que não. Muito pelo contrário. Um diz mata, outro diz esfola, se um tem pouca paciência, o outro tem menos paciência ainda. Bichas,  filas, trânsito, ajuntamentos, aglomerados, manifs, carneiradas, e é vê-los a olharem um para o outro e, muitas vezes sem ser preciso dizer uma palavra, dar meia volta e ir noutra direcção qualquer. Não sabemos para onde vamos, mas sabemos que não queremos ficar ali.

 

Assim que começa a Primavera, começa mais um ciclo. As esplanadas da linha de Cascais começam a encher-se. É o início de dieta de esplanadas, para nós. Porque o que nós gostamos nas esplanadas é da calma, poder fazer uma pausa, olhar para o mar, assim, sem ser de repente. Chegar e estar às moscas. Sentar numa mesa, ser atendidos, esperar o razoável, comer sem stress "ah, há ali pessoas que se querem sentar, vamos lá a despachar", saborear a comida (que é pouco mais que um pretexto), beber um café, fumar um cigarro sem ter de me preocupar com o facto do fumo ir para cima de quem está na mesa do lado. Mais um café. A conta. Bora? Bora.

 

Assim sendo, no Outono começamos a entrar e estado de graça e no Inverno é que é.

 

E esta é a única justificação para que, no último fim de semana de Novembro, quando estavam certamente temperaturas negativas, nós, que não saímos de casa para ir à praia, tivéssemos saído para ir à Marina de Cascais e à esplanada de S. Pedro. Chovia a cântaros. Foi tão bom.

 

 

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3 comentários

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De suskind a 10.12.2008 às 00:02

:)
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De pedrocs a 10.12.2008 às 11:15

Nunca a praia está tão boa como no Inverno.

Todo a areal da Caparica vazio, o ventinho frio nas ventas, o Sol a passar entre as nuvens. Lindo.

Verão, Sol, molhada, bichas, trânsito... that's for suckers.
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De Belmira Besuga a 10.12.2008 às 18:48

Não gosto de discotecas!
Não gosto de Bichas!
Não gosto de carneiradas!
Gosto de escolher os livros não pelo que tanto se recomenda.
Gosto de vermos um filme bom cá em casa e depois falarmos acerca de...
Gosto do sossego da minha casa.
Gosto de cantar e dançar na minha sala ou quarto ou no atelier bo meu marido que sempre tem a acompanhá-lo música fantástica. Mas danço sozinha que ele é um bocado torto (salvo seja). Ri-se mas fica quietiiinho... Bom... verdade verdade é que se for em tom romântico dá para ser a dois...

Bicho do mato também me diz alguma coisa. Quando ainda era miúda, lá na terra, chamavam-me os de casa, as irmãs (5), mais ou menos isso. É que eu gostava de ler (na casa de banho para não me sentir exposta e "enxovalhada" cá no meu íntimo), gostava de ficar no muro na parte de trás da casa a olhar o infinito e a sentir a paz daquilo tudo que eu nem sabia bem explicar, gostava (já) de cantar o que ouvia na rádio e dançar, e ouvia das boas porque fazia isso enquanto estudava ou fazia a minha parte na arrumação da casa e não ia à missa para ver os rapazes. Enfim... dessa altura, BICHO DO MATO e mais qualquer coisa de fora de tempo... Nada que me tenha afectado a existência. Continuo tão ou mais feliz que os outros, as outras, e acho que de certa forma passei a merecer algum respeito por este jeito que nem todos entendem muito bem.

Um abraço, por ser assim sem se importar com isso.
Belmira Besuga

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