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Miguel Esteves Cardoso - a Entrevista

por jonasnuts, em 07.10.08

Transcrevi a parte da entrevista que o Miguel Esteves Cardoso deu ao Carlos Vaz Marques, para o Pessoal & Transmissível. Transcrevi a parte em que conversam sobre Blogs. Mas vale a pena ouvir toda, aqui.

 

 

A parte que diz directamente respeito aos Blogs, reza assim:

 

CVM: (se tivesse sido eleito deputado) Teria mudado de alguma forma a política portuguesa?

MEC: Não.......nada. Claro que não, mas pelo menos tinha sido uma..........as pessoas gostam .... têm que haver válvulas de escape. Mesmo que não sejam eficazes. As coisas não funcionam, ou são fracassos, é bom que haja coisas que falhem, também, porque são verbalizadas.

CVM: Quais são hoje as válvulas de escape que vê à nossa volta?

MEC: Eu vejo isto muito mal. Eu vejo isto muito mal. Em termos de imprensa, etc.. Porque eu sinto que as pessoas têm medo, ninguém tem dinheiro, as pessoas estão acobardadas,  têm medo de dizer as coisas erradas e portanto sinto um ambiente de não haver válvulas de escape, ninguém quer ser a válvula de escape.

CVM: Mas está a referir-se à imprensa?

MEC: Não, imprensa e toda a gente. A imprensa nunca está divorciada ou desligada da sociedade portuguesa. Acho que nisso é uma imprensa muito boa. Reflecte, muito. As pessoas têm medo, e não falam, estão caladas, e estão preocupadas e nesse sentido fazem faltas válvulas de escape. Porque isto é uma situação muito perigosa, esta situação de anuência e de falta de coragem e de vontade de falar, não é? Não há sítios onde escrever, onde fazer merda, não há. Não há sítios onde desabafar.

CVM: Há os Blogs, há a Internet....

MEC:Há os Blogs, só que os Blogs anulam-se...

CVM: Nunca houve tanta capacidade de expressão pública como hoje.

MEC: Se não fosse os Blogs...se não houvesse os Blogs estávamos todos tramadíssimos. Os Blogs são A grande válvula de escape, mas isso pronto, obviamente. Só que são tantos, e são tão personalizados....

CVM : Anulam-se uns aos outros, é isso?

MEC:...e são tão, sobretudo, são tão identificados, tão civilizadamente identificados, que é bom, têm os de esquerda, os de direita, não sei que mais....que não há aquela concentração que havia antigamente em que havia só um, um órgão, em que havia uma certa....não é violência...mas uma espécie de frémito, de comunicação de expressão. Tem que ser dito, eles têm que não sei quê, eles não podem não sei que mais. Não era indignação fácil.

CVM: E hoje sente que os Blogs se anulam uns aos outros?

MEC: Os Blogs são uma coisa maravilhosa. A melhor coisa que aconteceu em Portugal no século XX, sem dúvida nenhuma. E são, dos que eu conheço os ingleses, os americanos, de longe os mais bem escritos, os mais bem mantidos.


CVM: E tem uma explicação para isso?

MEC: Dizia-se muito que Portugal é um país de poetas, e não sei que mais, de pessoas que tinham coisas na gaveta, mas de facto os portugueses escrevem muito bem.

CVM: Portugal é um país de Bloggers, afinal.

MEC: É um país de Bloggers completamente. E de bloggers muito bem....nós pelo menos uns .... estive a contar noutro dia, uns quase 100 blogs, 100 blogs, assim de que se uma pessoa tivesse tempo.... que se ganha em ler, e que são bem escritos. E não é só bem escritos, têm um brio na apresentação mesmo na apresentação gráfica e na manutenção de princípios e na na comunicação entre eles, têm uma educação entre eles, e uma ética, que eu acho nunca houve na imprensa portuguesa, portanto essa condescendência que as pessoas têm para os Blogs, os Blogs estão muito à frente da Imprensa. Mas muito à frente, porque não são corruptos, não estão calados, não estão acomodados e defendem as suas ideias.

Portanto, quando dizem os Blogs como sendo uma imprensa menor, eu vejo muito mais ao contrário, eu vejo muito mais os jornais como sendo Blogs publicados e comprometidos. A internet em geral para o mundo, mas sobretudo os Blogs em Portugal, os Blogs e toda a comunicação feita através de internet, é uma coisa importantíssima.



 

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8 comentários

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De Daniel Marques a 07.10.2008 às 22:01

«têm os de esquerda, os de direita, não sei que mais....»

Os «não sei que mais...» somos nós?
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De jonasnuts a 07.10.2008 às 22:30

Desculpa lá, mas não me importo de estar incluída nos "não sei que mais", porque, se formos a ver, a Blogosfera é, na realidade, esse "não sei que mais".

:)
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De Daniel Marques a 07.10.2008 às 22:33

Eu também não me importo. Mas decidam-se que raio de nome nos dar! ;)
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De jonasnuts a 07.10.2008 às 22:38

"não sei que mais" parece-me bem :)

Olhando para o meu Blog, tenho uma certa dificuldade em chamar-lhe outra coisa :)
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De Daniel Marques a 07.10.2008 às 22:42

Realmente... O mesmo se aplica ao meu. Talvez a riqueza seja não ter definição para o que fazemos... hmm... Chama-lhe arte. lol
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De jonasnuts a 07.10.2008 às 23:06

Não tenho necessidade de lhe chamar nada, talvez por isso me sinta tão confortável com a expressão "não sei que mais".


Claro que o Miguel Esteves Cardoso nunca esteve aqui, nem sabe que isto existe e não era a estes Blogs que se estava a referir com o "não sei que mais". Estava a referir-se a Blogs bem escritos, que não se situam politicamente, pelo menos de forma explícita. O Bitaites, por exemplo, é um dos melhores exemplos de "não sei que mais" :)
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De Marco Santos a 08.10.2008 às 01:59

«Não sei que mais vou escrever» é uma expressão que penso muito, disso não há dúvida... ;)

Mas o MEC esteve bem.
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De a.almeida a 16.10.2008 às 16:46

Pelos vistos o MEC não soube bem definir os ...não sei que mais.
Nós também não. Para além dos alinhadinhos, há os desalinhadinhos e os engraxadinhos. Depois...bem, sobram os restantes, o grosso da molhada.
Por mim não me importo de fazer parte da Liga dos Últimos. Os espectadores são poucos mas bons e ao intervalo há sempre uns couratos acompanhados de uma bejeca.

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