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Lá em casa, quem gosta de corridas não sou eu. É ele. Eu acompanho, mais coisa menos coisa, às vezes, nem sempre. Torço sempre pelo Rossi, não só porque ele também torce, mas também porque o Rossi tem aquela coisa de parecer boa pessoa, bom puto. Manteve o ar de puto. Já não é o menino prodígio de há uns anos, mas continua a ser um puto, e dá a ideia de que se diverte imenso a fazer aquilo que faz. Pode nada disto corresponder à realidade, mas como não tenho forma de saber, tenho ainda alguma ingenuidade (mesmo que artificialmente arranjada) para gostar de pensar que é mesmo verdade, que ele é boa pessoa, que é malandro, e que se diverte a fazer a vidinha dele.

 

No Domingo houve uma corrida. Nos Estados Unidos, em Laguna Seca. Lá em casa os Domingos são habitualmente mais devagar. Sejam as motos sejam os carros, as corridas têm sempre a mania de atropelar o horário dos almoços (isso e o facto de acordarmos depois do meio-dia).

 

Percebi que a coisa era diferente da corridinha habitual. Havia por ali um entusiasmo mais entusiasmado do que o costume. A televisão estava sintonizada no Eurosport. Havia dois comentadores portugueses, não sei quem são. E estavam também entusiasmados. Mas aquele entusiasmo televisivo, calmo, politicamente correcto, monótono. Uma seca. Eu percebia mais da importância daquela corrida pelo brilho dos olhos e pelos palavrões dele do que pelas palavras dos senhores comentadores.

 

Já antes tínhamos notado que os comentadores ingleses têm um estilo diferente. Mais informal, mais divertido, mais entusiasmado. Podem estar a trabalhar (e estão), mas, lá está, divertem-se a fazer aquilo que fazem, ou é essa a ideia que transmitem. A mesma corrida, comentada pelos portugueses e pelos ingleses não é a mesma corrida.

 

Ontem à noite, fruto de actividades que agora não interessam nada, vimos a corrida de Laguna Seca comentada pelos ingleses. Aquilo é um show dentro do show. E falam uma língua que toda a gente percebe. Isto é, não se põem com detalhes técnicos de pistons e outras coisas mecânicas (nem sei se as motos têm pistons), falam uma linguagem que as pessoas normais percebem. Para quem, como eu, não é fanzoca da coisa, é um incentivo adicional. Vejo mais depressa uma corrida se os comentários forem feitos com o estilo inglês (ou americano, ou lá de onde são os senhores), do que se forem feitos ao estilo português.

 

Insistimos em confundir seriedade com monotonia, e monocórdico. Não tem que parecer que estão a levar uma seca, para parecerem sérios e fidedignos.

 

Há qualquer coisa em Portugal e nos portugueses que parece pôr em campos opostos o trabalho e o divertimento. Se uma pessoa se está a divertir, é porque não está a trabalhar.

 

Senhores comentadores portugueses da Eurosport, não colocando em causa as vossas competências técnicas (até porque as minhas competências não chegam para isso), tentem mostrar mais entusiasmo. Para os comentadores ingleses, way to go, boys!

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8 comentários

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De joao moreira de sá a 22.07.2008 às 22:44

100% de acordo. Quer em relação ao "dottore" quer em relação aos comentadores, são ingleses e são um espectáculo dentro do espectáculo. Eles vibram tanto como nós que estamos a ver, é aí que está a diferença.
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De Gonçalo Silva a 22.07.2008 às 23:05

È a diferença de culturas e não só. Não sei quem são os comentadores Portugueses mas devem ser os mesmos que comentam ginástica artística, já na Eurosport è o Randy Mamola, ex-campeão das 500cc na década de 80 e para alguns (eu) o melhor piloto de todos os tempos. È natural que o entusiasmo seja maior, não só percebe o desporto em si como ninguém, como adoraria estar na pista.
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De Fernando Vasconcelos a 22.07.2008 às 23:55

Também há bons (excelentes) comentadores portugueses no Eurosport. Oiçam por exemplo o Tour de France. Recomendo. Esses mesmos comentadores por vezes também comentam futebol. sempre muito divertido.
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De AnaD a 23.07.2008 às 00:14

Depois deste post só posso dizer: não me vejam a F1 na SportTV e respectivos comentários do José Miguel Barros, que muito estimo e admiro, e que tem preciosos conhecimentos de F1 mas não nasceu para ser comentador.

Eu confesso que vou mais pelo estilo sóbrio q.b., embora por norma goste dos comentários da Eurosport ... aliás como já aqui foi referido o caso do Tour é exemplificativo, aqueles três são demais, o que eu me rio com eles, especialmente o Olivier com o seu sotaque, até parece que estamos todos juntos num grupo de amigos a ver as "corridas".

Há ainda um outro estilo, o que me leva a carregar na tecla mute ... os comentários da Tele5 ... para além de histéricos (aquilo não é entusiasmo, é muito mais que isso) são completamente parciais.
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De Shrike a 23.07.2008 às 00:22

Já deves saber que sou um petrolhead inveterado e as corridas de 500/motogp sempre foram das minhas favoritas.
Desde que a eurosport contratou aqueles dois "bacalhaus secos" para comentarem as corridas em português, deixei de ver. Vejo só se apanhar por acaso.
Os ingleses transmitem a ideia de não estarem só entretidos, mas serem verdadeiros fanáticos de MotoGP, já vi corridas em que pareciam que iam começar a chorar de alegria ( até o veterano ex-campeão Randy Mamola), fazem parte do show em vez de observadores desinteressados. Os portugueses parece que estão a comparar estilos de crochet transmontano tradicional.
Corridas é uma cena um pouco infantil e levar assim a sério... perde a piada. Quem me dera que eu pudesse subscrever os canais directo no produtor, era logo eurosport em Inglês... ( e o discovery, em vez de brazileiro, claro, mas isso é outro assunto...)
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De FlipO a 23.07.2008 às 01:14

É como a diferença entre um bom episódio do Top Gear com o Jeremy Clarkson a gritar de alegria comparado com o TV Turbo com um velho qualquer a debitar valores dos 0-100, l/100km, cilindradas, e tudo o mais, num tom monocórdico...
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De pedrocs a 23.07.2008 às 08:51

É como diz o FlipO... lembro-me do Hamster a gritar "Oh my god! I'm so alive, I'm so alive!"... isto, claro, antes de quase morrer num carro a jacto.

Mas o gajo gozou!

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De pedrocs a 23.07.2008 às 08:54

E já agora acrescento que os comentadores de futebol são a mesma tanga.

Às vezes está a ser marcado um golo e os gajos estão a discutir os finos detalhes da plantação de bananeira em Port-au-Prince.

Basta comparar com qualquer comentário na rádio... parecem dois jogos diferentes!

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