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Tenho essa lacuna na minha alma. Não sou uma apreciadora fácil de poesia. Gosto de algumas coisas, mas não é um autor em específico. São umas coisas daqui, outras coisas dali, e não tem a ver com estilos. É-me difícil incorporar a poesia. E depois, precisamente porque o meu sentido artístico no que diz respeito à poesia não é nada apurado, não consigo distinguir a boa da má. É um problema.

Há uma forma de eu gostar de poesia, mas tem de ser com boleia, boleia da música. Se for um poema com música, já gosto, e já consigo distinguir os bons dos maus poetas. Pelo menos no que diz respeito ao meu gosto pessoal. Basicamente, sei o que me toca e o que não me toca.

Depois há um problema. Temos os consensuais. Aqueles poetas que toda a gente louva e toda a gente admira, e quando eu digo toda a gente, refiro-me obviamente a quem tem gosto apurado para esse tipo de coisas. Por exemplo, toda a gente diz, e eu acredito, que o Alexandre O'Neill foi uma dos nossos maiores poetas. E eu volto a acreditar. O problema é que o meu caso com o Alexandre O'Neill é pessoal.

Eu devia ter, vamos, 10 anos. 10 anos é uma idade muito precoce para se reconhecer um poeta. Mas eu reconheci-o. Estava a almoçar com o meu pai na Tasca do João, ali para os lados do Lumiar. Coisa rara, poder almoçar com o meu pai, e ainda por cima fora. Não me lembro se era algum acontecimento especial, mas devia ser, naquele tempo, almoçar fora era significado de um acontecimento muito especial. Não me lembro.

Sei que estava sentada à espera que chegasse a minha comida, e vejo o Sr. Alexandre O'Neill a entrar, acompanhado por uma senhora. Senta-se 2 mesas ao lado da minha. Eu tremia de excitação. Falei com o meu pai e confirmei - Ó pai, é o Alexandre O'Neill, o poeta, não é? O meu pai confirma, com um ar surpreendido do tipo "mas como é que uma miúda reconhece um poeta?".


Eu era uma miúda tímida. Tímida de não falar com estranhos, nem mesmo se eles me dirigissem a palavra. Tímida de me esconder atrás das saias da minha mãe, ou do meu pai (neste caso, das calças), porque tinha vergonha. De tudo, e mais alguma coisa.
Mas achei que um poeta era uma pessoa importante. Achei que ter um autógrafo de um senhor poeta, que eu tinha reconhecido, era um tesouro pelo qual eu estava disposta a ultrapassar a minha timidez.

Perguntei ao meu pai se podia, e ele torceu o nariz - "não vás incomodar o senhor, que ele está a conversar". Eu insisti, e lá veio a autorização. Pedi-lhe uma caneta, peguei num guardanapo (da mesa ao lado, porque queria que o meu futuro tesouro começasse bem, limpo), fiz das tripas coração e lá fui.

10 anos. No tempo em que os 10 anos eram mesmo 10 anos. Vermelha que nem um tomate. Aproximei-me da mesa onde estavam sentados e fui bem educada. No que presumo que fosse uma voz de menina disse "boa tarde", e sorri. Nada de volta. Nem um sorriso, nem um levantar de sobrancelhas, nenhum sinal de que me tivesse ouvido, não fosse estar a olhar para mim. Mais coragem, preciso de mais coragem. Eu reconheci-o, e sei que o senhor é um grande poeta, e gostava de lhe pedir que me desse o seu autógrafo. Pronto. Já está.
Estava certa de que o mais difícil já tinha passado. Que a coisa estava no papo.


E foi nessa altura que caiu o balde de água fria, fria e seca. Não dou autógrafos.
Assim. Sem mais nada. Voltou a cabeça para a frente e continuou a conversa que eu certamente tinha interrompido. Sem parecer sequer dar pela minha existência.

As lágrimas subiram-me aos olhos mas não chorei, (já era orgulhosa na altura). Olhei para o meu pai, à procura de resguardo, à procura de ser salva (na altura em que olhar para o meu pai ainda tinha esse significado). E recebi o resguardo. Um sorriso e um aceno, para me voltar a juntar a ele, na nossa mesa. Enquanto me aproximava, sem chorar, mas cheia de raiva, o meu pai ia dizendo para mim (e tendo em conta o volume da voz, era para o Sr. O'Neill também) - Sabes filha, às vezes as pessoas acham que são muito importantes, e é nessa altura que se vê que afinal, não valem nada. Pagámos e viemos embora.

E eu fui rejeitada pela primeira vez na minha vida, logo por um poeta.

Pode ser que o senhor estivesse em dia não, que os poetas também têm direito. Pode ser que o senhor tivesse acabado de ver rejeitado o seu pedido para sair do país, para ir atrás do amor, mas não, isso foi muitos anos antes. Será que foi isso que o amargou? Pode ser que o senhor tivesse acabado de receber uma notícia terrível.

Mas eu não sabia, e tinha 10 anos, e não tinha a culpa.

E por causa disso, nunca mais gostei de poesia, e nunca mais gostei do Sr. O'Neill

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18 comentários

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De Edson Medina a 16.10.2007 às 21:41

Se fosse eu a escrever o post, provavelmente terminava com um "ainda bem que morreu".

Mwahahahahahahhaha!
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De pedrocs a 17.10.2007 às 09:09

Se não gostas de poesia, não gostas... não precisas de pedir desculpa pelo facto a cada 4 palavras :-)

Eu acho que a poesia é a forma de arte mais over-rated do planeta e então quem se intitula "poeta"... ouch! É preciso um granda ego.

Provavelmente um ego do tamanho do desse O'Neill...
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De Pedro Leitão a 27.06.2009 às 02:59

Tenho que discordar desse "arte mais overrated do planeta", ou que o facto de alguém se intitular poeta faça dessa pessoa possuidora de um ego gigantesco.

De qualquer forma que grande parvalhão esse O'Neill, isso não se faz, especialmente a uma criança...
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De Koshdukai a 17.10.2007 às 16:34

É interessante (para mim, claro) o quão semelhante ao que descreves, é o meu sentimento para com a poesia.

Quando parar de me balancear, vou fazer um post sobre isto. ...talvez até um terno de posts.

É isso, vou fazer um tri-post... quando parar de me balancear.
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De A Mona Lisa tinha Gases a 17.10.2007 às 20:29

Raios partam o homem!
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De Anónimo a 23.10.2007 às 23:29

Eu gosto de poesia, mas não me perguntem autores, gosto daquela que me toca e que leio ao acaso, acho até os livros cheios de poesia aborrecidos.
Mas de vez em quando encontro algum poema que se entranha em mim e fica lá para sempre, ocasionalmente transpira para fora. E sim às vezes também gosto de escrever.
Quanto a autógrafos eu era daquelas (e ainda sou) que simplesmente não aceito que alguém que eu não conheço pessoalmente escreva algo para mim e/ou assine. Manias ;)

Bjs pati Nativa :)
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De carlos ramos a 14.05.2008 às 18:19

A maior parte dos cidadãos deste país não gosta de ler, nem de literatura, quanto mais de poesia.
a poesia é uma das belas artes, é coisa rara, coisa de astros... é para eles que o escritor se assume quando no papel verte o seu sangue.
Entende-se assim?
alvez não
bem me parecia...
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De jonasnuts a 14.05.2008 às 20:49

Faltaram-lhe aí as palavrinhas mágicas:
"na minha opinião".

Não se julgue dono de verdades absolutas, porque estas não existem. A poesia será uma das mais belas artes, para si.

Para mim não é.

Esta opinião não faz de mim nem melhor nem pior pessoa, e a poesia não sai beliscada.

Gostar de poesia não é, ser superior.

Entende-se assim?
Talvez não.
Bem me parecia...
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De Anónimo a 27.06.2009 às 12:24

Nao gostar de poesia porque um gajo qualquer recusou um autografo e um bocado parvo.
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De jonasnuts a 27.06.2009 às 12:28

É possível, mas está longe da parvoíce do poeta.

Criei anti corpos :)
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De Ognito Inc a 29.06.2009 às 11:56

Que história fabulosa!
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De BB a 24.07.2009 às 10:05

Eu arriscaria a hipótece "C"...

Como figura pública, devia fazer-lhe impressão aqueles adultos que usam as crianças para abordarem os artistas em caça de um autógrafo... coragem que lhes falta.

Ou então, como poeta... também não entende isso de autógrados. No meio de uma tasca, durante a refeição... ainda se fosse num ambiente propício, com poesia e livros...

Sim, tinhas 10 anos. E por isso mesmo, há coisa que não compreendemos. Cá para mim, se fosse hoje, tornavas-te amiga dele!
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De NancyB a 02.12.2009 às 09:18

Olá Jonasnut,
Gostei imenso do seu texto, é lindíssimo. Não sei se é realmente certo aquilo que eu lhe vou dizer, provavelmente será nuns casos e noutros não, mas tenho a firme convicção de que a máxima afectividade de um poeta vem até nós através das suas (deles) palavras, para além de que nenhum leitor deverá negar a voz que clama dentro dele: adoro!, detesto!. De resto os escritores são seres humanos, com dias bons e maus, como todos nós.

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